A produção industrial brasileira teve alta de 8% em julho, com avanço em 25 das 26 atividades

A atividade industrial do Brasil segue esboçando uma lenta recuperação após o tombo severo causado pela pandemia de covid-19. Dados divulgados nesta quinta pelo IBGE mostram que o setor avançou 8% em julho, na comparação com junho. Foi o terceiro mês consecutivo de alta na comparação mensal, mas ainda longe de recuperar as perdas acumuladas na crise.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, a indústria registrou queda de 3%, nono resultado negativo seguido nesse tipo de comparação.

Os números apontam para uma possível melhora no terceiro trimestre, caso as flexibilizações das medidas de isolamento sigam ocorrendo e não haja um novo ciclo de fechamento de indústria por conta da pandemia. O número surpreendeu o mercado, cuja projeção estimada era de 5,4%, segundo a Reuters.

Em julho, o setor industrial seguiu beneficiado pelas medidas de flexibilização e protocolos de segurança, criados em diversos Estados, além da recomposição dos estoques das empresas que estavam paralisadas.

Houve crescimento em 25 dos 26 setores, com a reativação das plantas industriais paralisadas, na comparação mensal. É o maior espalhamento da série histórica, ou seja, pela primeira vez, 25 setores apresentaram taxa positiva desde 2002.

O setor ainda encontra-se 6% abaixo do patamar de fevereiro, período anterior às medidas de restrição e isolamento.

“Observa-se uma volta à produção desde maio, e é um crescimento importante, mas que ainda não recupera as perdas do período mais forte de isolamento”, ressalta Andre Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.

O segmento de veículos automotores, reboques e carrocerias avançou 43,4% no mês, influenciado principalmente pela produção de caminhões e carros. No entanto, ainda está 32% abaixo da produção registrada em fevereiro, no pré-pandemia. O mesmo cenário se reflete em outros ramos industriais.

“A indústria automotiva puxa diversos setores em conjunto, sendo o ponto principal de outras cadeias produtivas”, lembra Macedo.

Especialistas apontam que a industria devera seguir o bom desempenho nos próximos meses, principalmente com a prorrogação do auxílio emergencial até o fim do ano, capaz de aquecer uma demanda. A expectativa do mercado, segundo o Boletim Focus, elaborado pelo Banco Central, é que o setor registre uma queda 7,35% no ano.

“A perspectiva de curto prazo para a indústria permanece positiva”, ressalta Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs.

Economistas da Guide escreveram em relatório que o setor deverá recuperar os níveis verificados no pré-crise antes do volume de serviços, motor do PIB brasileiro. Como a indústria não depende fortemente do contato social para realizar seus negócios, acaba se beneficiando mais do que os serviços.

A dúvida, no entanto, é como o setor irá avançar após recuperar as perdas da pandemia. A alta no desemprego, junto com a queda na renda disponível da economia, devem, ao longo do tempo, minar novos avanços da mesma magnitude.

Hoje o País tem 18  milhões de brasileiros que não estão procurando trabalho por conta da pandemia ou por falta de vagas onde mora.

“A redução no nível de renda que certamente acompanhará esta deterioração do mercado de trabalho deverá suprimir a demanda, criando um obstáculo para avanços de maios grandeza na produtividade uma vez que as medidas de estímulo fiscal do governo passem a perder força”, ressaltam os analistas da Guide.

Antes da pandemia, a indústria brasileira já vinha apresentando fragilidade. Em 2019, sequer havia recuperado as perdas da crise no biênio 2015 e 2016, e retraiu 1,1%, segundo o IBGE.

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