Dilma diz que é vítima de um “golpe de Estado” e que só o povo pode afastar um governo “pelo conjunto da obra”

A presidenta afastada Dilma Rousseff afirmou nesta segunda-feira (29), em sua defesa no julgamento final do processo impeachment no Senado, que é alvo de um “golpe de Estado” e que não cometeu os crimes de responsabilidade fiscal pelos quais é acusada. Segundo ela, só povo pode afastar nas eleições um governo “pelo conjunto da obra”.

Dilma começou a discursar às 9h53min, 15 minutos depois da abertura da sessão pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Ricardo Lewandowski. Ele concluiu sua fala às 10h39min. O pronunciamento da presidenta afastada antecedeu as três últimas etapas do julgamento: o interrogatório de Dilma pelos senadores, o debate entre acusação e defesa e a votação do impeachment pelos parlamentares.

No discurso, Dilma disse que “jamais” renunciaria ao mandato. “Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado”, declarou. Segundo ela, o regime presidencialista do Brasil não prevê que, se o presidente perder a maioria dentro do Congresso, o mandato deve ser cassado.

“No presidencialismo previsto na Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar o presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade e está claro que não houve tal crime”, disse Dilma. “Não é legítimo, como querem meus acusadores, afastar o chefe de Estado e governo por não concordarem com o conjunto da obra. Quem afasta o presidente por conjunto da obra é o povo, só nas eleições”, afirmou.

Ela se referiu ao governo do presidente interino Michel Temer como “usurpador”. “Um golpe que, se consumado, resultará na eleição de um governo indireto e usurpador. A eleição indireta de um governo que na sua interinidade não tem mulheres nos ministérios quando o povo nas urnas escolheu uma mulher para comandar o País. Um governo que dispensa negros na sua composição ministerial e revelou profundo desprezo pelo programa escolhido e aprovado pelo povo em 2014”, disse Dilma.

A presidenta iniciou o discurso fazendo referência à tortura que sofreu como presa política durante a ditadura militar. “Não posso deixar de sentir na boca novamente o gosto amargo da injustiça e do arbítrio”, afirmou.

Segundo ela, em seu mandato como presidente, defendeu a Constituição e que jamais agiria contra a democracia. “Sempre acreditei na democracia e no Estado de Direito. Jamais atentarei contra o que acredito ou praticaria atos contra os interesses daqueles que me elegeram”, afirmou a presidenta afastada na parte inicial de sua fala. “Não luto pelo meu mandato por vaidade ou apelo ao poder como é próprio dos que não têm caráter. Luto pelo povo do meu país, pelo seu bem estar”, declarou.

Dilma fez críticas à atuação do ex-presidente da Câmara,Eduardo Cunha (PMDB-RJ), alvo de um processo de cassação na Casa. Para ela, o processo de impeachment é resultado de uma “chantagem” de Cunha, que, segundo ela, agiu em retaliação depois que o processo de cassação foi aberto no Conselho de Ética da Câmara. Segundo ela, na gestão de Cunha, além de a Câmara não ter dado apoio a medidas para combate à crise econômica, ainda apresentou “pautas-bomba” que aumentavam os gastos do governo.

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