Donald Trump quer prioridade na vacinação contra o novo coronavírus para cidadãos dos EUA

O governo Trump esnoba mais uma vez o multilateralismo ao deixar os EUA de fora da coalizão de 170 países liderada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para distribuir de forma igualitária as vacinas contra o coronavírus. O presidente americano põe na conta da Organização Mundial de Saúde o principal motivo para recusar a cooperação global.

Os EUA não querem se ver limitados por organizações internacionais “influenciadas pela corrupta OMS e pela China”, conforme explicou Judd Deere, o porta-voz da Casa Branca. Na ótica do governo americano, a decisão é até coerente, já que em julho o país se retirou formalmente da OMS, sob críticas dos democratas.

Mas não é só isso. Trump tem pressa para anunciar aos americanos que os EUA terão uma vacina antes do dia 3 de novembro, quando ele será testado nas urnas. Seria o trunfo, a chamada “surpresa de outubro”, que a cada quatro anos agita a reta final para o pleito presidencial.

Seu governo assegurou contratos que garantem 800 milhões de doses de seis fabricantes e têm como destino de 330 milhões de americanos, como parte da Operação Velocidade Máxima. As perspectivas são animadoras, mas a correria para adequar a vacina ao cronograma eleitoral também acende as suspeitas de politização.

E é uma aposta arriscada, advertem especialistas de saúde. A decisão de abrir mão da plataforma Covax (Covid-19 Vaccines Global Access) e negociar acordos paralelos com as farmacêuticas também deixa os EUA em posição vulnerável. Não adianta um país garantir a proteção de sua população se o resto do mundo continua à mercê do novo coronavírus.

Como observou a virologista Angela Ramussen, pelo Twitter, a doutrina America First não se aplica a pandemias e o vírus não observa as fronteiras nacionais. “Se alguém está em risco, todos nós estamos. Recusar-se a cooperar com outros países em vacinas matará pessoas.”

A plataforma integrada por 172 países tem como objetivo conceder acesso mundial a uma vacina eficaz e atender primeiro as populações mais vulneráveis de cada país. Desta forma, não apenas impede que o país que desenvolva a vacina fique com o maior lote, como evita que nações mais pobres fiquem desabastecidos.

De fora da Covax, os EUA de Trump buscam assegurar uma vacina eficaz para os americanos, mas a sua retomada econômica também depende da recuperação de quem ficará para trás. E a China já sinalizou que deve participar do programa global liderado pela OMS, que Trump rejeita.

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