“Enterros expressos” escondem a passagem da pandemia do coronavírus na Nicarágua

A pandemia do novo coronavírus expõe duas realidades dissonantes na Nicarágua. A relatada pelo ditador Daniel Ortega, de que não representa ameaça ao país e tem apenas 23 casos registrados e apenas oito mortos. E a informada pelo Observatório Cidadão, integrado por especialistas para monitorar a Covid-19, que dá conta de 1.033 doentes e 188 mortos.

Não bastasse a falta de transparência, o governo determina velocidade máxima no sepultamento dos corpos, que a população apelida de “enterros expressos”. Ocorrem de madrugada, às vezes clandestinamente, sem a presença da família. Tornam as mortes ainda mais suspeitas, uma vez que, sem testes, na certidão de óbito, as causas não são relacionadas ao novo coronavírus.

Os relatos de parentes que perderam alguém para a doença e só souberam da morte após o funeral constam das irregularidades apontadas pelo Observatório Cidadão à má gestão do governo durante a pandemia.

“Evidenciamos um crescimento exponencial das mortes suspeitas e relacionadas com a Covid-19. Acreditamos que os enterros ocorrem de madrugada para que sejam menos visíveis pela população, porque não há qualquer protocolo de saúde que indique esse procedimento”, relata um dos integrantes do Observatório Cidadão, sem se identificar, por medo de represálias.

O caixão vem lacrado e não pode ser aberto. Velórios são proibidos. Em alguns casos, dois ou três parentes têm permissão de acompanhar o enterro, executado por dois funcionários sanitários vestidos com trajes especiais para evitar o contágio. Enquanto um realiza o funeral, o outro fumiga com desinfetante o local, também escolhido pelo Ministério da Saúde.

Desde que o vírus chegou ao país, o governo Ortega demonstrou descaso aos riscos, promovendo festividades e eventos esportivos e descartando a quarentena e o fechamento de escolas como medidas de contenção. O país funciona normalmente, apesar de o sistema de saúde dar sinais de sobrecarga.

A manipulação de dados aliada à falta de testes para detectar o novo coronavírus fazem com que a doença não possa ser rastreada. Os informes do Observatório Cidadão, apesar de discrepantes em relação aos do Ministério da Saúde, também são subestimados.

Os dados oficiais não revelam a idade, o sexo ou o perfil dos infectados. Os casos suspeitos são relacionados a doenças como pneumonias, hipertensão ou diabetes. No que depender do regime autoritário comandado por Daniel Ortega e sua mulher Rosario Murillo, a pandemia deve ser tratada como fantasia. E o segredo é uma das armas da política de Estado.

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