Executivos da Odebrecht veem o ex-presidente Marcelo Odebrecht como a maior ameaça à empreiteira

Existem dois tipos de bicho-papão a aterrorizar empresas que foram apanhadas pela Operação Lava-Jato e fizeram acordos com os procuradores da força-tarefa: os bancos, que podem quebrar as companhias em razão de dívidas, e órgãos do governo, como a AGU (Advocacia-Geral da União), que podem levar à bancarrota os empresários com multas impossíveis de serem pagas.

A Odebrecht, a maior empreiteira brasileira e a que enfrenta uma das situações financeiras mais delicadas, encara um terceiro tipo de bicho-papão: o antigo dirigente que foi preso e agora quer justiça ou vingança, dependendo do ponto de vista. Marcelo Odebrecht, ex-presidente da companhia, encarna esse papel e quer atingir a cúpula da empresa por julgar que lá há criminosos que não confessaram seus crimes.

O alvo principal de Marcelo é o futuro presidente do conselho de administração, o cargo mais elevado na organização: Newton de Souza, sucessor de Emílio Odebrecht, o pai de Marcelo, que exerce essa função a partir deste mês.

É por essa razão que Marcelo é visto por executivos e ex-executivos da Odebrecht como a principal ameaça ao futuro da companhia, mais do que bancos e órgãos do governo, segundo três desses profissionais que pediram para que os seus nomes não fossem citados.

Souza virou o principal alvo de Marcelo por ser visto por ele como uma extensão do pai, com quem está brigado desde antes de ser preso na Lava-Jato, em junho de 2015. Marcelo diz que seu pai preservou Souza do acordo de delação que 78 executivos assinaram para continuar mantendo a influência no negócio, enquanto ele passou dois anos e meio na prisão e vai passar prazo igual em prisão domiciliar. Emílio apontou outra motivação em documento divulgado no fim do ano passado. Disse que visava a profissionalização da companhia ao proibir que parentes sejam presidentes de empresas.

Marcelo começou o seu ataque a Souza anexando e-mails em processos que estão com o juiz Sérgio Moro, dos quais o executivo recebia cópias. Em uma das mensagens, Marcelo sugere que Souza sabia da política da empresa de pagar propina.

Um e-mail de 2008 cita o caso de negociação de impostos no governo Lula que resultou no pagamento de um suborno de R$ 50 milhões ao PT, segundo a delação do próprio Marcelo. A mensagem também trata de propina solicitada por um intermediário de um contrato que a Odebrecht fechou na Líbia.

Souza rebate que não há nada de ilegal no e-mail. Em uma escalada aos ataques, Marcelo enviou mensagem a executivos da Odebrecht com críticas mais diretas a Souza. No e-mail, ele diz que a companhia não pode mais tolerar que “pessoas que optaram por omitir seus erros continuem na organização”.

Ele afirma que é um equívoco achar que está em guerra com a empresa: “Não tenho nenhum sentimento de vingança, apenas de preservar o legado de meu avô”. O temor dos executivos ouvidos pela reportagem é de que os ataques de Marcelo inviabilizem a ida de Souza para a presidência do conselho. Isso jogaria o grupo em uma rota de incertezas que dificultaria ainda mais a negociação de novos empréstimos bancários.

Nota

A Odebrecht afirmou, em nota, que “a significativa transformação empreendida no grupo Odebrecht nos últimos anos está consolidada na nova política sobre governança, baseada nas mais avançadas referências”. O texto frisa como “decisão fundamental” a separação entre acionistas e  executivos.

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