“Fora, Temer” embala caravana de apoio a Lula

“Você sabe o que é caviar?/ Nunca vi nem comi, só ouço falar…”

A cantoria de Zeca Pagodinho monopolizou as três TVs de um dos 12 ônibus de turismo alugados para transportar cerca de 500 militantes da CMP (Central de Movimentos Populares) de São Paulo a Curitiba.

A caravana faz parte dos esforços da Frente Brasil Popular para levar 50 mil pessoas à cidade onde Lula terá seu primeiro cara a cara com o juiz Sergio Moro.

Às 2h da madrugada desta quarta (10), 12 horas antes do horário marcado para o depoimento. A turma do fundão está animada, revezando gritos de “vai, Corinthians!” com “fora, Temer”.

Para o presidente Michel Temer, reservam uma canção que diz assim: “Pisa ligeiro, pisa ligeiro/ Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro”.

Caviar de fato não tem, mas tem vários potes Tupperware com torta de frango, bolo de cenoura, maionese e macarrão frio com milho, presunto e frango, do jeito que as formigas gostam.

Os passageiros culpam Temer por cortes nos programas Leve Leite (responsabilidade da gestão João Doria) e pelas reformas trabalhista e previdenciária, que, se aprovadas, porão “tudo a perder”. Dizem que estão indo ao Paraná “lutar por moradia”.

Porque, embora alguns acreditem que o PT não é inocente na Lava Jato, ainda veem o partido como o mais capacitado a batalhar pelas classes menos favorecidas.

Com ele, “pobre pode ter um celular bom, uma geladeira decente”, diz Fabiana Sena, de 42 anos.

A impressão geral: a vida era mais fácil no governo Lula (2003-2010).

Pré-PT: Maria Aparecida, de 29, lembra que na infância em Alagoas, na falta do que comer, a refeição era a base de carne de gato com chuchu (“especialidade” do pai).

Já sua irmã Priscila Brito, de 32, baiana “de mãe diferente”, lamenta a vida pós-PT.

“Quando Lula era presidente, ó, podia até fazer coisas erradas, mas ajudou muito os pobres”, afirma Priscila, uma das mulheres mais vaidosas do ônibus.

“Vamos pôr assim: nenhum [político] é inocente, todo mundo aprontou. Mas Lula deu mais benefícios – e Temer está tirando. Não passei fome no Lula. Passo fome hoje”, diz a profissional autônoma, que vende lingerie e CDs no Brás (região central de São Paulo) e complementa a renda com R$ 124 de Bolsa Família.

As irmãs Maria e Priscila, como a maioria no ônibus, moram na Terra Prometida, nome da ocupação com 300 famílias na zona leste paulistana.

O líder da caravana é o advogado Raimundo Bonfim, de 53. Coordenador da Frente Brasil Popular e militante de longa data, ele pede que todos joguem fora quaisquer objetos cortantes, “até faquinha de pão”. A polícia, diz, “pode embaçar” e está procurando pretexto “para não deixar a gente chegar em Curitiba”.

Quase todos os ônibus com a militância de esquerda foram parados próximos à entrada de Curitiba. O veículo passou impune “porque mostrei minha carteira da OAB”, diz Raimundo.

Ele orienta sua caravana a não cair nas provocações da direita pró-Moro. Zomba movimentos do outro lado que desistiram de vir a Curitiba, como Nas Ruas e Revoltados Online. “Hoje é como campeonato, a primeira partida de uma grande decisão. E a direita… Meio esquisito isso de tirar o time de campo.” Faltou quórum, alfineta.

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