Identificados sinos missioneiros mais antigos que o Rio Grande do Sul

Sinos Missioneiros de Caçapava do Sul
(Foto: Édison Hüttner)

Na Paróquia Nossa Senhora da Assunção, no centro da cidade de Caçapava do Sul, dois sinos de missões jesuíticas do século 18 são badalados diariamente. Suas origens eram desconhecidas, mas uma pesquisa do professor da Escola de Humanidades Édison Hüttner, coordenador do projeto de Arte Sacra-Jesuítico-Guarani da PUCRS, identificou, em fevereiro deste ano, que eles foram fundidos nos anos de 1715 e 1732. A data, inclusive, é anterior à criação oficial do Rio Grande do Sul, em reduções jesuíticas que atualmente correspondem a cidades da Argentina e Paraguai. Também participaram da pesquisa o padre Rudinei Lasch, pároco da Igreja, e o pesquisador Éder Abreu Hüttner.

 

O professor conta que os sinos estiveram em disputa na Batalha de San Carlos, à época província jesuítica do Paraguai, e eram objeto de cobiça do Império brasileiro, sob a expectativa de que tivessem ouro e prata em suas composições. Pesquisa realizada no Laboratório Central de Microscopia e Microanálise da PUCRS revelou, entretanto, que eles são feitos de bronze. Um dos sinos mede 70cm x 70cm e tem impresso, em números romanos, duas datas: 1714 e 1715. Na parte superior, em latim, diz pertencer ao povo de São Carlos, atualmente província de Corrientes, na Argentina.

O segundo, do ano de 1732, tem impresso, além do ano, seu local de fundição: a redução jesuítica de La Santísima Trinidad do Paraná, tombada pela Unesco em 1993 como patrimônio da Humanidade e, atualmente, pertencente ao Paraguai. Ele mede 60cm x 60cm, possui escritas em espanhol e também imprime o nome de seu fundidor, o índio Iganatius Guarepi.

Sinos Missioneiros (Foto: Édison Hüttner)
Sinos Missioneiros (Foto: Édison Hüttner)

A análise de Hüttner também identificou que os dois objetos possuem semelhanças com outros sinos missioneiros, como a tipografia impressa e símbolos de cruzes formadas por pequenos losangos. A Paróquia abriga, ainda, um terceiro sino, brasileiro, fabricado no ano de 1950.

A União de Três Países

Diariamente, os sinos argentino, paraguaio e brasileiro, entoados juntos, representam a união da história dos três países. A pesquisa de Hüttner e a identificação dos objetos missioneiros impacta em novidades sobre a história das missões no sul da América. Segundo o professor, os sinos poderiam estar perdidos ou fundidos, mas a própria história local de Caçapava do Sul os preservou. “Essa descoberta também é importante para a população e sua identificação com a história da cidade”. Ele finaliza refletindo que os sinos são anteriores à criação da própria Paróquia Nossa Senhora da Assunção.

Na última sexta-feira, 31 de março, os sinos missioneiros foram abençoados em uma cerimônia aberta à população da cidade e também foram escolhidos seus padrinhos, resgatando uma tradição da igreja. Na oportunidade, também foi inaugurada uma exposição sobre as descobertas da pesquisa. Hüttner pretende levar o estudo ao conhecimento de representantes da Argentina e Paraguai, aproximando a relação com os países através de suas histórias.

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