Ministério Público denuncia 32 pessoas por fraude em concursos públicos no RS

Operação cobertura cumpriu mandados em Porto Alegre em 2015. (Foto: MP/Divulgação)

A Promotoria de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre denunciou 32 pessoas por associação criminosa para fraudes em concursos públicos da Prefeitura de Itapuca e da Câmara de Vereadores de Jacuizinho, no interior do Rio Grande do Sul.

Eles responderão por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica, corrupção ativa e passiva. As investigações, coordenadas pelo promotor de Justiça Mauro Rockenbach, foram realizadas no âmbito da Operação Cobertura. À Justiça da Comarca de Arvorezinha foram denunciadas 29 pessoas. Ao Judiciário de Salto do Jacuí, outras cinco pessoas foram denunciadas.

ITAPUCA

Conforme as investigações, entre outubro de 2010 e setembro de 2014, o então prefeito de Itapuca, o denunciado Marcos José Scorsatto, ao lado do seu irmão e na época secretário-geral de Governo, o co-denunciado Flávio Scorsatto, com a finalidade de aprovar amigos, parceiros políticos e parentes, ajustaram as dispensas de licitações referentes aos Editais nº 01/2010 e 01/2012 para contratação de empresa para realização de concursos públicos.

Primeiramente, de forma a obter vantagem ilícita, mediante meio fraudulento, os dois ajustaram os valores para dispensa de licitação, para que fosse contratada a empresa IGRH (Instituto Gaúcho de Recursos Humanos), cujo funcionário era o denunciado Maicon Cristiano de Mello.

A empresa IGRH rescindiu o contrato e, após, por duas vezes seguidas, da mesma maneira, foi contratada pela prefeitura a empresa IDRH (Instituto de Desenvolvimento em Recursos Humanos Ltda.), que tinha Maicon como sócio oculto e administrador. Os irmãos Scorsatto ajustaram as dispensas de licitações (Edital 01/2010 e 01/2012) para empresa IDRH ser contratada, já que a pessoa jurídica não estava apta a realizar concurso público porque o objeto social da empresa era o “treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial”.

Maicon Cristiano de Mello era o responsável pelos ajustes das remessas de orçamentos para a prefeitura de Itapuca, para justificar e não deixar perceptível o direcionamento para a IDRH aplicar as provas e correções dos certames públicos. Era também o responsável pela troca de cartões de respostas entregues pelos candidatos, de modo que ele mesmo efetuava o preenchimento, para que pessoas indicadas pela administração municipal fossem aprovadas.

Ernesto Hattge Filho foi denunciado como responsável pela empresa Tallentos Soluções Integradas. Ele ofertou valores ajustados com outras empresas, para que não fosse perceptível o direcionamento da dispensa de licitação para as empresas IGRH e IDRH.

Hattge Filho também foi denunciado também pela empresa Leitura Ótica, que dava o suporte técnico aos crimes, gerenciando e manipulando documentos e informações repassadas pela IDRH.

Os denunciados Aires Bertollo, responsável pela empresa Incapel (Instituo de Pesquisa de Mercado, Opinião Pública e Concursos Públicos); Rodrigo Melo Ferreira e Carlos Gilberto Souza dos Santos, responsáveis pela empresa Energia Essencial; assim como Eunice Ana Vanzella e Juliano de Oliveira Crestani; responsáveis pela empresa Instituto Visão, auxiliavam a associação criminosa, acobertando o direcionamento da concorrência.

Renato Rech, que era responsável pelo setor de licitações da prefeitura, foi denunciado porque sabia dos ajustes realizados entre as empresas e agia perante o bando recebendo os orçamentos previamente combinados.

CANDIDATOS

Foram denunciados os candidatos Camila Scorsatto (aprovada para o cargo de auxiliar de administração), Alexandra Desegrini Scheffer (auxiliar de administração), Luciano Scorsatto (cargo de auxiliar de administração), Camila Macedo (enfermeira), Adriane Nichespois Scorsatto (professora de ciências – área II), Cláudia Fátima Moreschi Formagini (serviçal), Daiane de Lima Guerra (serviçal), Betina Scorsatto (agente administrativo), Michele Gambatto (agente administrativo), Juliane Scorsatto Tomazi (agente administrativo), Luciane Borsatto (agente administrativo), Eduardo Scorsatto (agente comunitário de saúde), Luis Carlos Casagrande Lasarotto (agente comunitário de saúde), Francieli Piccoli (fonoaudiólogo), Elyasar Antônio Formagini (monitor de telecentro), Antônio Geromil da Silva Borges (motorista), Elisandro Ferreira Taborda (motorista), Lusivan Scorsatto (motorista) e Odair Formagini (operador de máquinas leves). Isso porque, depois do concurso, Maicon Cristiano de Mello reimprimiu os cartões de respostas e os entregou, em branco, para o denunciado Flávio Scorsatto, que recolheu as assinaturas dos candidatos. Maicon preencheu as grades de maneira a não ficar perceptível as suas desclassificações.

Práticas semelhantes ocorreram nos municípios de Restinga Seca, Nova Hartz, Vale Verde, São Jorge e Bento Gonçalves. Todos exerciam atividades bem definidas na associação criminosa, sendo que Maicon Cristiano de Mello, Marcos José Scorsatto e Flávio Scorsatto dirigiram a atividade dos demais.

JACUIZINHO

Entre agosto de 2014 e novembro de 2014, o grupo denunciado se associou em quadrilha para fraudar o Concurso Público (Edital 01/2014) da Câmara Municipal de Vereadores de Jacuizinho, com intuito de aprovar determinada candidata indicada.

O denunciado Maicon Cristiano de Mello, sócio administrador da empresa IDRH, trocou o cartão de respostas entregue pela candidata Larissa Pereira Fiuza no cargo de oficial administrativo, de modo que ele mesmo efetuava o preenchimento. Para tanto, ele recebeu R$ 2 mil de dois parentes dela, os denunciados Jeanete Maria Steffanello Fiuza e José Américo Fiuza. Ernesto Hattge Filho, denunciado também, manipulou documentos e informações repassadas pela IDRH.

Condutas parecidas foram verificadas nos municípios de Restinga Seca, Nova Hartz, Vale Verde, São Jorge, Glorinha, Paraí e Bento Gonçalves.

OPERAÇÃO COBERTURA

Em 2014, a promotora de Justiça Vanessa Casarin Schütz percebeu indícios da ocorrência de fraude em certames de Jacuizinho e no município de Passa-Sete. Com a ampliação das investigações pela Promotoria Especializada Criminal, chegou-se a um grupo de sete empresas (Instituto de Desenvolvimento em Recursos Humanos Ltda. – IDRH, Energia Essencial Concursos Ltda., Pontua Prestação de Serviços em Concursos Ltda., P. Mais Recursos Humanos Ltda., Tallentos Soluções Integradas, SS1 Serviços e Assessoria em TI, Ernesto Hattge Filho Ltda.).

Foi constatado que, quando uma das empresas candidatava-se para participar de uma licitação por carta-convite, uma empresa indicava as demais para participarem da licitação, com a combinação prévia para que dessem valores que cobrissem o custo da pré-determinada como vencedora.

Em 15 de setembro de 2015, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na Prefeitura de Bento Gonçalves e de Jacuizinho. Em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Estância Velha e São Leopoldo, os alvos foram empresas e residências.

A Operação Cobertura apura fraudes em licitações para a realização de pelo menos 40 concursos públicos. Já houve denúncias pelas fraudes detectadas em concursos públicos em Restinga Seca, Bom Retiro do Sul, Nova Hartz, Bento Gonçalves, Glorinha, Paraí, Gravataí e Casca.

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