“Não vou me violentar pela vontade dos outros”, disse a deputada de Santa Catarina que sofreu ataques por ir à posse com um decote ousado

A deputada Ana Paula da Silva (PDT) chegou a pensar que seu traje de posse, na Assembleia de Santa Catarina, ia provocar reações por ser vermelho – uma cor estigmatizada nas últimas eleições. Mas foi o decote do macacão, comprado especialmente para a ocasião, que causou furor na internet e fez com que centenas de pessoas a chamassem de “daputada” e questionassem “a quantos ela tinha dado” para se eleger. “Não vou me violentar pela vontade dos outros”, disse a deputada em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Nas primeiras horas após os comentários, “não tinha um músculo ou osso que não doesse”, contou Paulinha, como é conhecida. A parlamentar de 43 anos, que foi prefeita de Bombinhas (SC) e se elegeu com 51 mil votos, defendeu a escolha do traje e atribuiu a onda de ataques ao machismo.

Em nota, a Assembleia informou que o decote não caracterizou quebra de decoro e repudiou os ataques. Segundo a deputada, “o pior já passou”. “Mas eu vou te dizer: nenhum ser humano consegue manter a sanidade diante de um processo de agressão em nível nacional. Apanhar desse jeito não é fácil. Ainda mais quando você não prevê, não imagina.”

Confira trechos da entrevista.

1. A sra. não imaginava, então, que sua roupa ia causar tamanha repercussão?

Nunca, jamais. Por duas razões: primeiro, porque fui prefeita por seis anos, concluí meu trabalho com grande aprovação e jamais fui julgada ou passei por uma situação constrangedora durante o exercício do meu mandato. E segundo porque, alguns anos atrás, quando eu comecei um processo de empoderamento íntimo, eu decidi que jamais ia me violentar por causa da vontade de outras pessoas, ou me sujeitar a conveniências.

2. Como foi a escolha da roupa?

Eu eventualmente uso um decote, um vestido mais justo, uma transparência. E também, eventualmente, saio de casa de jeans e moletom, porque nós somos assim. Nós, mulheres, nos vestimos conforme nosso estado de espírito. Quando a gente está com nossa autoestima bem-resolvida, a gente faz um trabalho mais consistente. Esse processo me trouxe algumas tristezas, mas também me deu muitas alegrias. Mulheres empoderadas, como juízas, desembargadoras, que viveram um processo muito semelhante, escreveram para mim.

3. Muita gente te procurou?

Muitas, muitas. Me mandaram mensagem no privado, textos inacreditáveis, sobre o quanto essa realidade é co- mum a tantas mulheres. De a mulher se autorreprimir, pela necessidade de se sentir aceita, por causa do julgamento da sociedade. Quantas amigas eu tenho que o namorado ou marido chega e diz: “Ah, não, amor, tu não vai com essa roupa hoje, né? Essa blusa está muito transparente”. Você pode ter se achado linda, mas acaba trocando para evitar uma briga.

4. Algumas pessoas disseram que a Assembleia não era o lugar para usar esse tipo de roupa. Como responde?

Eu não achei inapropriado, porque a roupa estava dentro do protocolo. Ela não é costumeiramente usada nessas ocasiões, mas estava absolutamente dentro do “dress code” da Casa. Não houve quebra de decoro. Mas as pessoas podem achar impróprio porque a nossa participação na política é tão minúscula, são tão poucas mulheres, que a gente vai se adaptando a uma série de regras que, se você for pensar, não são do mundo das mulheres. São do mundo dos homens.

5. A que atribui toda a reação ao seu decote?

Eu acho que isso é um extrato desse machismo secreto, subterrâneo, que ainda está posto na nossa sociedade e que a gente, inconscientemente, se permite alimentar. E também porque as mulheres têm uma participação muito reduzida na política, além desse momento de conservadorismo no nosso País. São vários fatores combinados. As redes sociais também têm um poder incontrolável. Ali, todo mundo fica corajoso.

6. A sra. se arrependeu de ter usado o macacão?

Essa é a pergunta mais difícil de responder. Porque tem uma metade de mim, a Paulinha como ser humano… Essa Paulinha, nossa senhora. No sábado [dia 3], eram 4h da manhã e eu não tinha nenhum músculo, nenhum osso, que não tivesse doendo em mim. Tu começa a ler e não consegue entender o que está acontecendo. E eu queria responder um comentário, apagar outro… Aquilo foi crescendo de um jeito que, quando eu vi, era de madrugada.

As pessoas falavam que eu era uma prostituta, representante das putas; me chamavam de dona de cabaré, de vadia, vaca. “Se for estuprada, depois não abre a boca para reclamar.” São coisas cruéis, que não se diz a ninguém.

Claro, essa primeira Paulinha ficou arrependida. Mas tem outra Paulinha que não poderia retroagir, depois de uma conquista que demorou para obter. Eu não queria provocar tudo isso. Mas eu não posso dizer que não faria isso. Porque não é justo comigo, nem com nenhuma outra mulher. A gente não tem que recuar diante dos nossos desejos. Não temos que nos subjugar.

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