O Brasil nunca apreendeu tanta cocaína quanto neste ano

O Brasil nunca apreendeu tanta cocaína quanto neste ano. Foram 75 toneladas da droga entre janeiro até o começo de dezembro, 56% mais do que ao longo de todo o ano passado, segundo levantamento da Polícia Federal (PF) feito a pedido do jornal O Globo. Em relação a 2012, primeiro registro da série histórica, o salto é ainda maior, de 275%.

Se os números expõem um rigor maior na fiscalização, revelam também um fato nada animador: há mais cocaína circulando no país. As áreas de cultivo da folha de coca, matéria-prima da cocaína, vêm numa tendência de crescimento, puxada pelos vizinhos Peru, Bolívia e Colômbia, segundo o World Drug Report 2017, relatório produzido pelo braço da ONU para Drogas e Crime (UNODC). Além de mais droga disponível, organizações criminosas brasileiras que dominam o tráfico estão fortalecidas.

“Até pouco tempo, o PCC (Primeiro Comando da Capital) não exportava. Depois que aumentou o controle no Paraguai, tem mais facilidade de mandar droga para o Brasil e para o exterior”, diz o analista criminal Guaracy Mingardi, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O padrão de exportação das facções vem chamando a atenção das autoridades brasileiras desde 2013. Um ano depois, a Polícia Federal deflagrou a Oversea, primeira operação que identificou o modo de atuação das facções nos portos. Na impossibilidade de guardar seus 16 mil quilômetros de fronteira e impedir a entrada da cocaína, a PF passou a investir na fiscalização na saída. Só neste ano, a polícia já apreendeu 30,6 toneladas de cocaína nos portos, diante das 18 toneladas no ano passado: 70% a mais.

A maior parte dessa droga foi encontrada em Santos, onde a quantidade interceptada chegou a 22,7 toneladas, contra 11,5 em 2017. De acordo com investigações do Ministério Público Federal, o PCC usa o porto de Santos para escoar cocaína a aliados da máfia italiana da Calábria, a Drangueta, e ao clã Saric, da Sérvia. Esses grupos são responsáveis pela distribuição da cocaína no continente.

Investigadores atribuem o aumento das apreensões no porto de Santos a ações de inteligência e à instalação de escâneres pela Receita Federal. Desde abril de 2016, uma portaria determinou que todo contêiner com destino a países europeus fosse escaneado na saída do porto, não só mais na entrada. A medida fez crescer a apreensão de cocaína: o salto foi de 1,05 tonelada em 2015 para 10,6 toneladas no ano seguinte.

De acordo com investigadores, os criminosos não demoraram a burlar a nova regra do escâner. Passaram a infiltrar a droga em cargas a serem despachadas para o Brasil e que, portanto, não seriam fiscalizadas. Já dentro do porto, cooptavam funcionários a fim de transferir a mercadoria ilícita para o contêiner a caminho da Europa. A PF instalou câmeras de segurança nessa área, e os bandidos encontraram outra saída: o embarque da droga quando o navio já deixou o porto. Há consenso ainda de que falta efetivo de agentes para fiscalizar os quase oito milhões de metros quadrados de área do porto, que este ano já movimentou 110,6 milhões de toneladas de cargas.

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