O presidente da Câmara dos Deputados esteve na Odebrecht no dia em que o sistema registrou repasse de caixa dois

A PF (Polícia Federal) obteve provas de que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), esteve na sede da Odebrecht no Rio de Janeiro no mesmo dia em que o sistema de contabilidade de pagamentos ilícitos da empreiteira registra um repasse destinado ao seu pai, o vereador e ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM-RJ). De acordo com os delatores da Odebrecht, Rodrigo negociava o caixa dois para a campanha de Cesar. Os registros de entrada revelaram quatro visitas de Rodrigo Maia à sede da construtora no Rio, uma a cada ano, entre 2010 e 2013.

Todos os acessos do deputado foram para encontrar o então diretor-presidente da empresa, Benedicto Junior. Anos após esses encontros, BJ, como era conhecido, revelou, em sua delação premiada à Operação Lava-Jato, que operou pagamentos ilícitos para Rodrigo Maia sob os codinomes Botafogo e Déspota, conforme o jornal O Globo.

De acordo com os dados obtidos pela PF, “Rodrigo Felinto Ibarra Epitácio Maia”, nome completo do deputado, registrou-se na portaria da construtora às 12h25m do dia 30 de setembro de 2010. O Drousys, sistema interno de propina da Odebrecht, também continha uma prova relevante para aquela data: um registro de pagamento de R$ 100 mil para o codinome Déspota, atribuído a Cesar Maia, autorizado por Benedicto Junior. Nas semanas anteriores àquele encontro, as planilhas apontam outros registros de transações direcionadas, segundo os documentos, ao pai de Rodrigo Maia: R$ 100 mil, em 12 de agosto; R$ 100 mil, em 26 de agosto; e outros R$ 100 mil, na primeira semana de setembro.

Maia nega ter recebido pagamentos ilícitos da Odebrecht, diz que “não se recorda” de ter procurado representante da empresa para pedir recursos em 2010 e afirma ter havido uma “confusão” na inclusão de seu nome na delação da empresa (leia a resposta completa mais abaixo).

No depoimento de sua delação, Benedicto Junior afirma que tinha feito contribuições à família Maia em 2008 e que, por isso, foi procurado na eleição seguinte.

Odebrecht

Maia atualmente é alvo de dois inquéritos abertos por causa da delação da Odebrecht. Um investiga sua participação na captação de recursos para o pai, enquanto outro é sobre pedido de verbas à Odebrecht em troca da contrapartida em uma medida provisória no Congresso. Para a Procuradoria-Geral da República, os pagamentos não se tratavam simplesmente de caixa dois, mas constituíram propina com obtenção de contrapartidas em favor da empreiteira. “As situações acima narradas não se tratam de mera doação eleitoral irregular. Vislumbra-se, na verdade, uma solicitação indevida em razão da função pública que se almeja ou que ocupa”, escreveu o então procurador-geral, Rodrigo Janot, ao pedir abertura de inquérito por causa dos repasses da empreiteira.

Os registros de entrada obtidos pela PF fortalecem os relatos da delação da empreiteira e complicam a situação de Maia em 2018. Ele é apontado como um possível candidato ao Palácio do Planalto e, na última semana, ocupou interinamente a Presidência da República durante viagem de Michel Temer ao exterior. A PF ainda está investigando os motivos das visitas de Maia a Benedicto Junior. Nenhum delator afirmou que entregou dinheiro pessoalmente a Maia. Por isso, o delator da Odebrecht deverá ser ouvido novamente. Os demais encontros do deputado com o ex-executivo na sede da construtora foram registrados em 4 de julho de 2011, 1º de novembro de 2012 e 27 de março de 2013.

Procurado, Rodrigo Maia afirmou, em nota, que “não solicitou qualquer benefício a Benedicto Junior, tendo o próprio admitido em delação que não houve nenhuma solicitação nesse sentido por parte do deputado. Benedicto Junior. também afirmou que só tratava de assuntos relacionados à política com Rodrigo Maia”.

 

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