Propinas da Odebrecht acirram disputas políticas na Colômbia e na Argentina

A revelação por parte do Departamento de Justiça dos EUA de que a empresa brasileira Odebrecht teria pago propinas em outros 11 países colocou lenha na fogueira política que vivem Colômbia e Argentina, ambas iniciando corridas eleitorais em ambientes muito polarizados.

“Aqui a Odebrecht já virou um dos temas da campanha, será mais um assunto para dividir os seguidores de Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos”, disse a articulista e jornalista colombiana María Jimena Duzán.

O ex e o atual presidentes colombianos, antes aliados, estão rompidos desde o início do mandato de Santos (2010). Porém, a verdadeira guerra se instalou mesmo quando o atual mandatário concluiu as negociações do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Uribe foi contra o pacto, liderou a campanha pelo “não”, venceu nas urnas e vem denunciando a forma como Santos aprovou o documento no Congresso de um modo que ele considera “inconstitucional”.

Dessa disputa, Santos saiu prestigiado internacionalmente, ganhando até o Nobel da Paz, mas vem perdendo popularidade, hoje em torno de 20%, enquanto Uribe apenas vê a sua crescer – está em 57%. Embora nenhum dos dois possa se candidatar na eleição presidencial de 2018, ambos estão desenhando as candidaturas e os argumentos dos que os representarão.

Se Santos vinha em dificuldades para recompor sua imagem interna diante do rival, a revelação dos pagamentos ilícitos da Odebrecht, ocorridos principalmente durante o período Uribe, surgem como um presente.

A denúncia é que a empresa brasileira teria entregue US$ 11 milhões, entre 2009 e 2014, para ser beneficiada em licitações. Embora o período abarque tanto a gestão de Uribe (2002-2010) como a de Santos, o atual mandatário colocou na lupa os US$ 6,5 milhões que teriam sido entregues a um funcionário da gestão anterior.

Santos apontou diretamente para o vice-ministro de Transporte de Uribe, Gabriel García Morales. “Quando estourou o escândalo da Odebrecht no Brasil, a Presidência pediu à Justiça brasileira toda informação a respeito e não se encontrou nenhum caso de suborno durante a nossa gestão”, disse Santos. A Procuradoria colombiana, porém, investigará todos os contratos.

Uribe não perdeu tempo para responder. Primeiro, reconheceu ser possível “que alguém que trabalhou em meu governo seja um dos beneficiários”, mas acusou Santos de omitir-se em outros supostos casos da atual gestão.

“A quantia identificada pelo Departamento de Justiça gasta na Colômbia não é muito alta, mas é bastante para este país. Santos e Uribe ganharam mais um tema sobre o qual disputar politicamente”, afirma Jimena Duzán.

Argentina

Enquanto isso, na Argentina, a revelação de pagamentos de propinas da Odebrecht – no valor de US$ 35 milhões entre 2007 e 2014 – surge em um momento em que a gestão Cristina Kirchner acumula acusações de corrupção. Enriquecimento e associação ilícitas, lavagem de dinheiro e favorecimento de um empresário ligado aos Kirchner são algumas das causas em curso contra o kirchnerismo.

“O caso Odebrecht entra em um contexto mais amplo, em que o governo anterior está muito complicado com vários escândalos. Mas também estamos vendo o governo atual, de Mauricio Macri, usando a corrupção kirchnerista como um instrumento de distração de seus erros”, disse a ex-deputada de oposição Myriam Bregman.

No caso argentino, as suspeitas recaem sobre o ex-ministro do Planejamento, Julio De Vido, responsável por verificar os contratos. Sem ser nomeado diretamente no documento americano, porém, De Vido já saiu a defender-se, o que causou uma sensação de que ele se estava incriminando.

O caso Odebrecht, porém, não mancha apenas a reputação dos kirchneristas, uma vez que respinga também em integrantes da família Macri. Angel Calcaterra, primo do presidente, é dono da empresa Iecsa, uma das principais construtoras do país, e que já se associou à Odebrecht em obras importantes.

Ao contrário da Colômbia, porém, a Justiça argentina ainda não deu mostras de que irá investigar a fundo as propinas da empresa no país. “Só dá para afirmar que a corrupção está instalada nas disputas eleitorais na Argentina desde a campanha de 2015 [quando Macri foi eleito]. E as acusações vindas do caso Odebrecht serão certamente parte dos argumentos no enfrentamento de 2017.”

Isso porque, no segundo semestre do ano, ocorrem eleições legislativas em que serão renovadas mais da metade das cadeiras das duas Casas do Congresso. Em ambas, hoje, o kirchnerismo mantém uma maioria.

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