Quase metade dos internados por coronavírus no Brasil têm entre 20 e 59 anos

A pandemia da Covid-19 no Brasil vem adotando um perfil bem distinto daquele verificado na Europa. Pelo menos 45% das pessoas internadas no País por causa do novo coronavírus têm entre 20 e 59 anos. Ou seja, não se trata de uma enfermidade predominantemente de idosos, como em outros lugares do mundo.

O levantamento foi feito pelo Portal Covid-19 Brasil, que reúne cientistas das mais diversas instituições nacionais, e tem como base o boletim divulgado dia 3 pelo Ministério da Saúde. De acordo com especialistas, isso ocorre em razão da pirâmide demográfica brasileira, da pouca adesão da população às medidas de isolamento social e da desigualdade social no País.

“No Brasil, essa não é uma doença de gente idosa, de velhinho; é uma doença de gente mais nova”, constatou a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e uma das integrantes do portal. “Para se ter uma ideia, 43% das pessoas internadas por Covid no Rio têm menos de 50 anos.”

O portal usa dados oficiais do Ministério da Saúde, informações do Registro Civil e também os números dos casos de síndrome respiratória aguda (que muitas vezes ocultam casos de Covid). Assim, o portal estima o que seria o número real de infectados, incluindo as pessoas assintomáticas e as que apresentam sintomas leves da doença. Os cientistas tomam por base os números de óbitos que, embora também sejam subnotificados, são considerados mais precisos.

“O número de mortes é maior entre os mais velhos, mas existe um significativo percentual de jovens sendo internado”, sustenta o especialista em modelagem computacional Domingos Alves, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, que também participa do portal.

Em relação à faixa etária, as mortes no Brasil seguem a tendência mundial: 85% são de pessoas acima de 60 anos, a grande maioria delas apresentando pelo menos uma comorbidade. Mesmo assim, na Itália e na Espanha, por exemplo, essa concentração é ainda mais alta, alcançando 95%. Por outro lado, no Brasil, pouco mais de 10% dos mortos têm entre 20 e 50 anos. Esse percentual é inferior a 1% tanto na Itália quanto na Espanha.

“Os mais jovens têm mais defesas imunológicas e, por isso, morrem menos”, afirma Dalcolmo. “Mas isso não quer dizer que não adoeçam com gravidade e, muito menos, que sejam imunes à doença.” A demografia explica parcialmente o fenômeno do rejuvenescimento da epidemia. Na Itália, por exemplo, 28,4% da população têm mais de 60 anos; número similar ao da Espanha, 25%. No Brasil, esse percentual é de 10%.

O número de pessoas obesas (fator de risco muito grave) é maior no Brasil do que nos países da Europa. De acordo com especialistas, a baixa adesão às medidas de distanciamento social também conta, bem como a questão social.

“Os jovens em maior risco são os das classes mais baixas, que precisam sair para trabalhar e que moram em ambientes propícios à disseminação da doença, como as comunidades”, explicou Dalcolmo. “A doença também espelha a nossa desigualdade social”, constata.

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