Quem é a indígena Ysani Kalapalo, que compõe a comitiva de Bolsonaro na ONU


Ysani já tem cerca de 270 mil inscritos no seu canal do youtube. (Foto: Reprodução/Youtube)

Em seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro citou Ysani Kalapalo como a representante dos povos indígenas brasileiros a ser ouvida pela comunidade internacional. Em carta lida durante sua fala, que, de acordo com o presidente, teria o aval de 52 povos indígenas, Bolsonaro mencionou que “Ysani goza de confiança e prestígio das lideranças indígenas interessadas em desenvolvimento, empoderamento e protagonismo, estando apta a representar as etnias relacionadas [na carta]”. Ysani, entretanto, não é reconhecida pelos povos tradicionais dessa forma.

Mas, afinal, quem é Ysani?

Ysani Kalapalo é uma indígena natural do Alto Xingu, que se descreve como “de direita”. Em 2013, ela chegou a discursar para parlamentares ao lado do deputado Jean Wyllys, falando de forma contundente contra a homofobia e os movimentos religiosos que tentavam impor aos indígenas suas visões. Este ano, porém, Ysani integra a comitiva do presidente Jair Bolsonaro para defender na Assembleia Geral da ONU a política ambiental e indígena do governo. Os argumentos dela vão ao encontro da mensagem que a gestão de Bolsonaro tenta difundir pelo Brasil e pelo mundo, após uma série de queimadas na Amazônia que repercutiram negativamente.

“Existe muito fake news dizendo sobre as queimadas. Estão dizendo que é culpa do governo Bolsonaro, que ele entrou e está queimando todo o Xingu. Não existe isso daí. A nossa cultura é fazer roça pra plantar mandioca e pra plantar outras coisas. Isso faz parte da nossa cultura, não é porque entrou um novo governo e ele tá queimando tudo. Nessa época de ano, essa época quente, sempre houve queimadas pra queimar roça. Isso faz parte, é normal. Isso é tudo exagero que a mídia está fazendo, não é culpa do governo”, afirma Ysani, em um vídeo de dois minutos e meio postado há dois dias na página do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Ysani conseguiu sucesso no YouTube, alcançando cerca de 270 mil inscritos em seu canal na plataforma. A indígena costumava elogiar frequentemente o cacique Raoni Kaiapó, indicado ao prêmio Nobel da Paz. Atualmente, porém, tem virado a maior parte de suas críticas a ele. “As pessoas dizem que eu fui comprada pra ser direitista. Eu sou tão gananciosa a ponto de vender a minha alma. Passei por muitos movimentos em que eu realmente vi as pessoas se venderem por migalha”, ela explica em um vídeo intitulado “Por que eu sou indígena de direita”. Em 2018, ela se aproximou de Bolsonaro e declarou o seu voto ao atual presidente. Ysani também se aproximou da ministra da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Protesto de caciques

Caciques de 14 povos indígenas do território do Xingu, em Mato Grosso, e a Associação Terra Indígena Xingu protestaram contra o convite feito por Jair Bolsonaro para que a indígena Ysani Kalapalo integre a comitiva do presidente na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Em manifesto, as 14 lideranças afirmaram que o convite a Ysani demonstra desrespeito aos povos e lideranças indígenas renomadas do Xingu. “O governo brasileiro ofende as lideranças ao dar destaque a uma indígena que vem atuando constantemente em redes sociais com objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil”, cita a carta.

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