Sem conseguir liderar a oposição, Lula traça caminho isolado na fase pós-prisão

Sete meses depois de deixar a prisão, o ex-presidente Lula tem frustrado integrantes de legendas aliadas e colegas do próprio partido ao adotar uma linha política considerada sectária. A avaliação quase unânime é que o petista não conseguiu assumir o papel de líder da oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro que se esperava dele após passar 500 dias na cadeia.

Com a postura, o ex-presidente contribui para o isolamento do PT, que, nas palavras de um dirigente de uma sigla de esquerda, viveria uma volta a suas origens na década de 1980, quando resistiu inicialmente a se juntar a outras forças políticas nas Diretas Já, não participou do Colégio Eleitoral que escolheu Tancredo Neves como o primeiro presidente civil após a ditadura militar e votou contra a Constituição de 1988.

“Ele saiu da prisão com a cabeça completamente fora do lugar. Fez aquele discurso (dias depois de deixar a cadeia) de que o PT deveria ter candidatura em tudo quanto é lugar nas eleições deste ano, em todas as capitais. Isso não corresponde à realidade. É um erro grave”, afirma Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB.

Uma liderança petista diz que Lula se sente injustiçado e tem baseado suas movimentações nesse sentimento, e por isso estaria “sectarizado”, quando deveria ter saído da cadeia com o discurso de união nacional. Um outro integrante do partido próximo do ex-presidente o vê com dificuldade de encontrar o tom e a forma de atuar nesse novo período.

Biografia

Outra fator que estaria motivado as atitudes do ex-presidente seria o interesse em recuperar a sua biografia após a prisão e as condenações por corrupção na Lava-Jato. Um aliado acredita que a meta de Lula é ser inocentado para passar para a História sem o peso das condenações — tema que já havia dominado a agenda do PT durante o tempo em que o petista ficou na cadeia.

Apesar de falar do seu desejo de voltar a concorrer a presidente, Lula é realista, acreditam seus interlocutores, e sabe que tem poucas chances de recuperar os diretos políticos que estão cassados.

Como justificativa para a sua rejeição aos manifestos, Lula tem dito que precisa se preocupar em garantir a identidade do PT e impedir que o partido se torne apenas mais uma entre tantas siglas.

O governador petista do Ceará, Camilo Santana, usou a palavra “equivocado” para classificar o gesto de Lula em relação aos manifestos. Ele acrescentou ainda que é hora de deixar de remoer o passado.

Um outro argumento usado por Lula para justificar as suas críticas aos manifestos foi a ausência de referências à “classe trabalhadora”. Para o ex-presidente, a adesão aos textos poderia significar um rompimento com as suas origens operárias. Mesmo petistas ligados ao movimento sindical têm se empenhado em convencer Lula a ser menos radical em sua atuação política.

A posição de Lula tem atrapalhado a união dos partidos de esquerda e centro-esquerda em torno do afastamento de Bolsonaro. O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), um defensor de uma frente ampla, avalia que não pode haver restrições na defesa da democracia.

“Para garantir a democracia e evitar que Bolsonaro se torne um ditador, sim. Tem que unir todo mundo”, pede Dino, minimizando, porém, o distanciamento de Lula dos manifestos. “É claro que eu não concordo com a crítica, mas eu não acho que isso seja impeditivo de nada, tanto é que muita gente do PT tem participado dos manifestos.”

O novo entorno

A dificuldade de Lula em assumir o protagonismo estaria provocando desencontros nas posturas das demais figuras do PT, na visão de um dirigente da sigla. Enquanto Lula critica os manifestos e se recusou a participar do ato realizado na última sexta-feira, Fernando Haddad, o seu substituto na eleição de 2018, assinou os textos e discursou na manifestação. Já o senador Jaques Wagner (BA) assinou uma nota recomendando que as pessoas não fossem aos protestos contra Bolsonaro no início do mês, enquanto a direção petista apoiou os atos.

Lula também estaria tendo dificuldades por causa do esvaziamento de seu instituto. Com as contas bloqueadas por causa das investigações, a diretoria formada pelos ex-ministros Luiz Dulci e Paulo Vannuchi e pela sua assessora na Presidência Clara Ant foi desmontada ainda em 2017.

Hoje, o círculo mais próximo de Lula no dia a dia é formado por um grupo de três assessores.

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