Sobrevivente recorda a tragédia de Hiroshima na premiação do Nobel da Paz

A campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares (Ican, da sigla em inglês) recebeu neste domingo o Prêmio Nobel da Paz 2017, em Oslo, na Noruega, e apelou que as potências atômicas se somem ao tratado de proibição desses arsenais para acabar com essa “ameaça” para a humanidade.

Único brasileiro a participar do Comitê Gestor da Ican, o professor gaúcho Cristian Wittmann, da Universidade Federal do Pampa, que foi a Oslo para a cerimônia de entrega da premiação, disse em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, disse que o Nobel da Paz auxiliará na mobilização da sociedade para a compreensão do risco que as armas atômicas representam. “Com a visibilidade que esse prêmio nos dá, aumenta a nossa responsabilidade e credibilidade em continuar com esse esforço de proibir e eliminar as armas nucleares”, disse Wittmann. “A postura bem-sucedida da Ican se deve a coordenar várias entidades para a assinatura desse tratado histórico na ONU em setembro.”

A Ican, coalização de 450 organizações em 101 países, impulsionou o histórico Tratado Global para Proibir as Armas Nucleares, que condena o desenvolvimento, testes, produção, fabricação, aquisição, posse ou armazenamento de armas nucleares, mas os Estados que possuem esse tipo de armamento, como EUA, Rússia, China, Reino Unido e França, não participaram das negociações.

“A luta contra as armas nucleares não é nova, ela remete à época de Hiroshima e Nagasaki e a todos os testes que foram provocados. A Ican recebe o prêmio como um reconhecimento pelo diferencial de seu trabalho de divulgar e sensibilizar sobre o impacto catastrófico que uma detonação nuclear, acidental ou não, pode causar efeitos globais”, disse o gaúcho.

“O Brasil foi um grande líder ao processo que levou à proibição dessas armas, principalmente nos últimos três anos, quando o país abraçou essa causa de um tratado de proibição no âmbito da ONU”, concluiu Wittmann.

Emoção

Durante a cerimônia de entrega, neste domingo, a diretora-executiva da Ican, Beatrice Fihn, disse que a entidade representa os que se recusam aceitar as armas nucleares como um elemento do mundo. Ela alertou que o risco de que essas armas sejam usadas é maior agora que ao final da Guerra Fria, pela presença de mais países com arsenais nucleares, mais terroristas e pela guerra cibernética.

Fihn recebeu o Nobel em uma cerimônia emotiva ao lado de Setsuko Thurlow, de 85 anos, sobrevivente da bomba atômica lançada em 1945 pelos Estados Unidos sobre Hiroshima, no Japão. Ela definiu as armas nucleares como “o mal extremo” e usou sua experiência para pedir o fim de uma “loucura” intolerável.

Thurlow se referiu também à “enorme esperança” representada pelo tratado, em um discurso que comoveu os presentes à cerimônia realizada na câmara municipal de Oslo.

A sobrevivente japonesa falou da “lembrança viva” do bombardeio, a sensação de “flutuar” no ar, o colapso da sua escola, os gritos dos seus companheiros e seu sobrinho Eiji, de quatro anos, convertido em “um pedaço fundido de carne” que continuou pedindo água até morrer.

“Enquanto saía me arrastando, as ruínas ardiam. A maioria dos meus companheiros de classe morreu, foram queimados vivos. Vi ao meu redor uma devastação total, inimaginável”, relatou Setsuko Thurlow.
Sua cidade natal – e com ela familiares e 351 colegas da escola – foi apagada, e nos anos seguintes milhares de pessoas morreram devido às consequências da radiação, “que ainda hoje continua matando”.
Thurlow também criticou o “mito” de que as de Hiroshima e Nagasaki foram “bombas boas” que acabaram com uma “guerra justa” e as culpou pela “desastrosa” corrida armamentista nuclear.

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