Um livro conta detalhes inéditos do incêndio, do resgate e das investigações do caso da boate Kiss

O relato de um dos primeiros a entender o tamanho da tragédia da boate Kiss, o sargento dos Bombeiros Robson Viegas Müller, é um dos flancos iluminados pelo livro “Todo Dia a Mesma Noite”, recém-lançado pela jornalista Daniela Arbex (Intrínseca, 248 páginas, R$ 39,90).

Sobre um tema já muito explorado ao longo de cinco anos, o trabalho de Daniela tem dois méritos principais. Um é mostrar o lado humano de personagens que até agora apareciam principalmente como vozes institucionais. Outro é retomar histórias doloridas como as dos sobreviventes e as dos pais que perderam filhos de forma bastante emocionante, mas nunca sensacionalista.

Resultado de mais de um ano de pesquisa e cinco viagens a Santa Maria, ele traz também informações novas sobre o trabalho das forças de resgate, emergência e tratamento.

Quando começou o trabalho, em 2016, Daniela se espantou ao descobrir que os profissionais da área de saúde nunca haviam falado sobre a tragédia entre si.

Ela afirma que seu principal objetivo é que o relato crie uma empatia pela dor do outro e nacionalize a história. “Esta não é uma tragédia da boate Kiss, nem de Santa Maria, nem do Sul. É uma tragédia do País.”

Uma das preocupações da escritora é que não se repitam tragédias semelhantes. Segundo ela, há um incômodo de parte dos moradores contra os protestos dos pais. “Se simplesmente virarem a página, o desastre vai, sim, se repetir.”

O livro conta situações em que pais foram ofendidos por desconhecidos.

Um dos focos de discórdia é a tenda armada na praça praça Saldanha Marinho, no coração da cidade. Nela estão fotos de 240 dos 242 mortos no incêndio, em ordem alfabética. De Alan Raí Rehbein de Olveira até Wictor Schimitz há jovens negros e brancos, loiros, ruivos e morenos, com camisetas do Grêmio e do Internacional, de gravata, de regata, e sobrenomes de inúmeras origens e misturas, como Scaphin de Freitas, Farias Brissow, Betega Ahmad, Webber, Toriolo, Segabinozzi, Zimmerman, Oliveira e Silva da Silva.

“Sorrir é uma conquista”, diz o slogan da clínica odontológica que fica na esquina em frente.

É ali que pais, sobreviventes e amigos faziam vigílias antes diárias e hoje semanais.

Polo de atração de alunos do interior gaúcho e de outros Estados, Santa Maria têm hoje cerca de 30 mil estudantes. Alguns deles também dão depoimentos a Daniela sobre o desespero que sentiram dentro da boate e a luta pela sobrevivência após o resgate.

Um dos pontos críticos é o que relata a falta de sensibilidade de políticos.

A notícia do desastre trouxe a Santa Maria várias das autoridades da época: a presidente da República, Dilma Rousseff, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, eram alguns deles.

Os políticos acabaram entrando no ginásio que servia de necrotério antes dos próprios familiares, que aguardavam desesperados por alguma notícia.
Daniela elenca essa passagem no capítulo das “desumanidades”, comparável apenas ao auxiliar de uma funerária que, ainda durante as necropses no ginásio, resolveu tirar uma selfie com os cadáveres.

 

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