Sábado, 29 de Novembro de 2025
Por Redação Rádio Pampa | 1 de novembro de 2021
O governo britânico deu 48 horas para que a França recue em uma disputa envolvendo a operação de navios pesqueiros no Canal da Mancha, que separa os dois países, e está no centro de um embate que pode levar a uma briga aberta entre a segunda e a terceira maiores economias do continente europeu. Em resposta, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu as negociações e adiou ao menos até a quinta-feira (4) eventuais retaliações.
Apesar da questão sobre as áreas de operação dos navios de pesca dos dois lados do canal ter raízes históricas e se arrastar há algumas décadas, o tema ganhou força após a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia (UE), em 2016.
Os franceses reclamam da demora dos britânicos em conceder licenças para que embarcações do país pesquem dentro das águas territoriais britânicas, especialmente perto das ilhas anglo-normandas, mais próximas da França do que do Reino Unido — algo que Paris considera ter direito sob os termos do acordo do Brexit.
Londres, por sua vez, diz que somente poderá fornecer tais licenças a embarcações que comprovem já ter pescado nesses territórios anteriormente, como forma de evitar a emissão de novas permissões.
Nas últimas semanas, a França vem elevando o tom do discurso, ameaçando impor medidas práticas, como maiores controles sanitários sobre mercadorias britânicas e mesmo o veto a navios do Reino Unido em alguns de seus portos. Na quinta-feira passada, autoridades francesas apreenderam um navio pesqueiro britânico perto do porto de Le Havre, alegando que ele não tinha permissão.
O ato foi considerado “desproporcional” por Londres.
“Os franceses fizeram ameaças completamente sem razão, incluindo às ilhas do Canal da Mancha e à nossa indústria pesqueira, e eles precisam deixar de lado essas ameaças ou usaremos os mecanismos de nosso acordo comercial com a União Europeia”, afirmou à Sky News a ministra de Relações Exteriores, Liz Truss. “Se alguém se comporta de maneira injusta em um acordo comercial, você pode tomar ações contra eles e buscar medidas de compensação. É isso que faremos se os franceses não recuarem.”
Truss foi além, dizendo que “a questão precisa ser resolvida nas próximas 48 horas”, e um porta-voz do governo disse que Londres tem “planos robustos de contingência” caso o prazo seja ignorado pela França, e que o país iria “retaliar de forma equivalente”.
Horas depois da entrevista, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que vai adiar a aplicação de eventuais retaliações aos britânicos. As primeiras sanções estavam previstas para entrar em vigor ainda na noite desta segunda-feira, mas agora, segundo Paris, não devem ser aplicadas antes de quinta-feira.
“Desde a tarde de hoje (segunda-feira, 1°), as conversas foram retomadas com base em propostas que fiz ao primeiro-ministro [Boris] Johnson. As conversas precisam continuar”, declarou Macron, em entrevista coletiva durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26, em Glasgow. “Vamos ver onde estaremos amanhã [terça-feira] no final do dia, se as coisas realmente mudaram.”
Em declarações à Reuters, o governo britânico elogiou a decisão francesa de adiar retaliações, e também defendeu a via do diálogo.
“Nós vemos com bons olhos o reconhecimento, por parte da França, que discussões são necessárias para resolver as dificuldades na relação entre o Reino Unido e a UE. O lorde [David] Frost [ministro do Brexit] aceitou o convite de Clément Beaune [ministro francês para Assuntos Europeus] para discussões em Paris na quinta-feira”, disse o porta-voz.