Terça-feira, 20 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de janeiro de 2026

No domingo (18/01), o Parque Estadual do Tainhas foi palco de uma cena que, mais do que esportiva, é simbólica: 510 ciclistas percorreram os 23 quilômetros entre o Passo do “S” e o Passo da Ilha, consolidando a 9ª Volta Ecociclística como o maior encontro já realizado desde a criação do evento. O número recorde não é apenas estatística; é sinal de que o ciclismo ecológico deixou de ser nicho e tornou-se movimento cultural nos Campos de Cima da Serra.
O Tainhas, criado em 1975 e com mais de 6.600 hectares de campos, matas com araucárias e rios cristalinos, é uma unidade de conservação que sempre viveu entre o desafio da preservação e a pressão por uso econômico. A Volta Ecociclística, nesse contexto, funciona como vitrine: mostra que é possível ocupar o espaço público sem degradá-lo, transformando trilhas rústicas e travessias de rios em experiências de turismo sustentável.
Percurso e seus símbolos
O trajeto, já tradicional, é mais do que estrada de terra. É metáfora. As pedras soltas, a lama trazida pela chuva e a travessia pelo rio são obstáculos que lembram que a relação entre sociedade e natureza nunca foi simples. O ciclista que enfrenta a lama não está apenas sujando o uniforme; está vivendo, em escala reduzida, o dilema de um Estado que precisa equilibrar desenvolvimento e conservação.
Comparações necessárias
Enquanto Porto Alegre discute ciclovias urbanas e São Paulo celebra maratonas de rua, o Tainhas oferece algo distinto: um evento que não ocupa o espaço urbano, mas devolve protagonismo ao espaço natural. Comparado a iniciativas como a Volta das Araucárias em Santa Catarina ou o Caminho da Fé em Minas Gerais, a Volta Ecociclística se destaca por unir esporte e política ambiental. Não é apenas pedalada; é ato de resistência contra o esquecimento das unidades de conservação.
Internacionalmente, provas como a Cape Epic na África do Sul ou a TransAlp Challenge nos Alpes europeus transformaram paisagens em palcos globais do ciclismo. O Tainhas, guardadas as proporções, cumpre papel semelhante: coloca os Campos de Cima da Serra no mapa do turismo de natureza e reforça que o Rio Grande do Sul tem vocação para unir esporte e ecologia.
Discurso oficial e a leitura crítica
A gestora do parque, Ketulyn Marques, destacou que a Volta incentiva o turismo de baixo impacto e sensibiliza para a conservação. É verdade. Mas há uma camada além: o evento também revela a carência de políticas públicas permanentes para parques estaduais. Sem iniciativas como essa, o Tainhas corre o risco de ser apenas mais uma área protegida no papel, invisível para a maioria dos gaúchos.
Comunidade e parcerias
Mais de 800 pessoas estiveram envolvidas, entre voluntários, equipes de saúde, bombeiros e empresas locais. Esse dado mostra que a Volta não é apenas da Sema ou do Grupo Iter, mas da comunidade. É a sociedade civil que sustenta o evento, numa lógica que lembra mutirões antigos: cada um contribui um pouco para que o coletivo exista.
Parque como patrimônio
O Parque Estadual do Tainhas abriga espécies como a seriema, a perdiz, o tatu-mulita e o graxaim-do-campo. São símbolos de uma biodiversidade que resiste. Ao pedalar por ali, o ciclista não está apenas praticando esporte; está cruzando territórios de fauna e flora que contam a história natural do Rio Grande do Sul.
A 9ª Volta Ecociclística não é só recorde de participantes. É recorde de significado. Em tempos de crise ambiental global, reunir centenas de pessoas para pedalar em defesa da natureza é gesto político. Uma celebração da sustentabilidade, uma aula prática de educação ambiental e um lembrete de que o futuro do Rio Grande do Sul depende de como tratamos nossos parques hoje.(por Gisele flores – gisele@pampa.com.br)