Quinta-feira, 08 de Outubro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 8 de outubro de 2026
Eu não sei quem nomeou as ruas da Vila Assunção em Porto Alegre e qual foi a intenção dessas escolhas, mas posso provar que andar nesse lugar com atenção pode ser um passeio pela Amazônia.
Quando eu era criança, havia, no coração do bairro, uma escola chamada Grupo Escolar Cândido Rondon. Mais tarde, foi absorvida pela Escola Estadual Santos Dumont, mas, na minha infância, era o colégio responsável pela educação de todas as crianças da região.
Ficava na rua Caeté, distante uns 500 metros da rua Manauê. Para chegar nessa rua, era preciso caminhar pela Pareci. Subindo até o topo, era preciso cruzar a Cariri, Coroados, Caiapó, até finalizar na rua Bororó. Somente adulta fui relacionar tudo isso.
Cândido Rondon foi responsável por importantes levantamentos geográficos, registrando esses lugares na cartografia brasileira. Foi responsável por levar o telégrafo a regiões onde viviam diferentes povos indígenas, que ocupavam locais importantes no oeste brasileiro.
Desde por volta de 1900, saía em expedições e tinha como lema “morrer se for preciso, matar nunca”. Durou o suficiente para falar em demarcação de terras com Getúlio Vargas, ter o nome citado por Einstein na indicação ao Nobel da Paz e contar a admiração e parceria de Darcy Ribeiro nos primórdios de Xingu – o que, para mim, é uma honraria daquelas.
Tudo isso sendo de ascendência Bororo, justamente o nome da rua no ponto mais alto do bairro, de onde se pode avistar o Guaíba, para nos lembrar de que todas as águas do mundo estão interligadas.
Eu morava lá, brincava nessas ruas, sabia os nomes de cor e não tinha ideia de nada disso. Que língua era essa? Que pessoas moravam nesses lugares? Que distância estavam de mim? Qual a importância na ordem da vida?
Eu não sabia de nada, e nenhum adulto parecia saber. Hoje, tenho certeza, precisamos buscar essas informações, reconstruir nossa história, colocar o que importa outra vez no seu lugar.
Entender, por exemplo, por que a escolha da principal rua, a que atravessa todo o bairro, cortando ao meio essas aldeias referência dos povos originários, se chama Pereira Passos.
Ele foi um dos engenheiros envolvidos no projeto do eixo ferroviário Madeira-Mamoré, atravessando a Amazônia por terra. E não há registro do seu lema.
* Chris Cidade Dias, escritora, autora do romance “A mulher que ouvia os quadros”
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