Domingo, 12 de Julho de 2026

Home Comportamento A geração que não quer depender de ninguém

Compartilhe esta notícia:

Viver mais já não é o suficiente. Entre os mais jovens, cresce a ideia de que a longevidade passa por algo fundamental: a preservação da autonomia. A mudança aparece em hábitos que, até pouco tempo, eram associados a fases mais avançadas da vida. Treino de força, atenção à mobilidade, cuidado cognitivo, terapia, prevenção cardiovascular e preocupação com a qualidade do sono passam a ser incorporados à rotina das novas gerações cada vez mais cedo.

Não se trata apenas de estética ou performance. Existe uma tentativa de preservar a funcionalidade ao longo do tempo.

“Com mais acesso à informação, existe também uma maior consciência de que a qualidade de vida no futuro é resultado das escolhas feitas no presente”, afirma a psicóloga cognitivo-comportamental Ilana Fermann.

A autonomia deixa, então, de ser algo garantido e passa a ser construída desde cedo.

“Ao mesmo tempo, convivemos hoje com idosos ativos, independentes e com qualidade de vida. Isso se torna uma referência concreta do que os jovens desejam para o próprio envelhecimento”, pontua a especialista.

A preocupação precoce encontra respaldo na ciência. A neuropsicóloga Simone Fidelis explica que hábitos como atividade física, sono regular, manejo do estresse, vínculos sociais e acompanhamento psicológico têm impacto direto sobre o funcionamento cerebral.

“Eles não blindam o cérebro, mas ajudam a preservar funções como atenção, memória, velocidade de processamento e regulação emocional”, afirma.

No longo prazo, isso amplia as chances de manter a liberdade e a independência.

“A pessoa mantém por mais tempo a capacidade de decidir, planejar, organizar a rotina e adaptar-se às mudanças.”

A saúde cognitiva deixa de ser um assunto restrito às idades mais avançadas e entra na lógica da prevenção. Mas existe um limite delicado entre cuidado e controle.

“O excesso de estímulos mantém o cérebro em estado constante de alerta. Isso pode aumentar a fadiga mental, reduzir a profundidade da atenção, prejudicar o sono e dificultar a recuperação emocional”, explica a neuropsicóloga.

Um cérebro que descansa pouco e processa estímulos demais, diz ela, tende a funcionar com menos eficiência, principalmente em tarefas que exigem concentração, tomada de decisão e regulação das emoções.

Cuidado x controle

A relação entre autonomia e funcionamento cerebral é direta. Atenção, memória, funções executivas e saúde mental sustentam a capacidade de resolver problemas, organizar tarefas e adaptar-se à rotina. Quando essas funções começam a falhar, a independência também pode ser afetada.

Mas a busca por autonomia também se mistura a uma necessidade constante de previsibilidade em uma geração marcada pela ansiedade.

“A autonomia passa a ser um valor central, ligada à ideia de liberdade, controle e até identidade, como se ser independente fosse uma medida de sucesso”, afirma.

Aqui, vale o alerta para o paradoxo contemporâneo: o cuidado pode facilmente se transformar em vigilância permanente.

“O limite saudável está quando o cuidado com o futuro não compromete a forma como você vive o presente”, pontua Ilana.

A internet participa ativamente desse processo. Se, por um lado, amplia o acesso à informação, a aplicativos de saúde e a conteúdos sobre prevenção, por outro, intensifica comparações e idealizações.

“Cada pessoa tem um corpo, um contexto e uma forma de envelhecer. Saber filtrar o que consumimos é imprescindível para não transformar a saúde em uma busca inalcançável”, completa a neuropsicóloga.

Ainda assim, o que parece emergir é uma mudança mais ampla na ideia de longevidade. O foco deixa de estar apenas na extensão da vida e passa a incluir a preservação da capacidade funcional.

“A ideia de envelhecer bem está mudando, especialmente entre os jovens. Não basta viver mais, é preciso viver com funcionalidade, clareza mental e participação ativa na própria vida”, resume Simone.

Talvez a grande mudança esteja justamente em trocar a obsessão por uma longevidade a qualquer custo pelo desejo de preservar a autonomia ao longo da vida.

Hábitos que ajudam a preservar a autonomia

Não existe uma fórmula única, mas algumas escolhas podem fazer diferença ao longo da vida. Entre elas estão:

– Praticar atividade física regularmente.

– Dar atenção à mobilidade e à funcionalidade do corpo.

– Manter uma rotina de sono regular.

– Cuidar da saúde cognitiva.

– Buscar formas de manejar o estresse.

– Preservar vínculos sociais.

– Fazer acompanhamento psicológico quando necessário.

– Filtrar o excesso de informações e evitar transformar a saúde em uma busca inalcançável.

– Equilibrar o cuidado com o futuro sem deixar de viver o presente.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Comportamento

Em três dias, Instagram lança e cancela inteligência artificial que podia alterar fotos dos usuários sem permissão
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Pampa News