Sábado, 15 de Agosto de 2026

Home Tecnologia A indústria global de falsos médicos feitos por IA que usa o medo para viralizar entre idosos no Brasil

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Celi Ferreira, de 82 anos, decidiu não fazer a cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista. Avaliou que ainda enxerga bem e que o procedimento não seria necessário.

Enquanto assistia a vídeos no YouTube, recebeu uma recomendação sobre o tema, narrada por um suposto médico que prometia proteger a visão por meio do consumo de frutas.

“Não me animei [com a orientação do oftalmologista], pois ainda vejo bem. Agora vou seguir sua orientação”, escreveu ela nos comentários do vídeo.

O médico do YouTube não existe. É um avatar criado por inteligência artificial.

Embora o YouTube sinalize que o conteúdo foi gerado por IA, o vídeo alcançou quase 300 mil visualizações e cerca de 300 comentários, muitos de pessoas como Celi, que buscam informações sobre saúde na terceira idade e acreditam estar recebendo orientação de um profissional de saúde real.

A publicação faz parte de uma estratégia adotada há pelo menos um ano por criadores de conteúdo em diversos países, que enxergam no público idoso um nicho lucrativo.

O modelo também se espalhou pelo Brasil, muitas vezes copiado e adaptado de canais estrangeiros e impulsionado por criadores brasileiros, que produzem e ensinam a produzir esse tipo de conteúdo.

O lucro pode vir tanto das visualizações no próprio YouTube quanto da venda de e-books e produtos anunciados nos canais.

Para aumentar a audiência, tutores ensinam a criar títulos e roteiros que despertem medo e sensação de urgência, levando o espectador a acreditar que corre um risco imediato à saúde e incentivando-o a assistir ao vídeo até o fim.

Segundo esses criadores, os idosos são um público ideal porque passam horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível para gastar e tendem a confiar em quem promete ajudá-los.

A produção desse tipo de material pode ainda configurar crimes, segundo professores de direito ouvidos pela reportagem, como falsa identidade e exercício ilegal da medicina.

Celi disse à BBC News Brasil que a decisão de não fazer a cirurgia nos olhos não foi motivada pelo vídeo e que costuma seguir apenas dicas de alimentação encontradas no YouTube.

Ela se surpreendeu, porém, ao descobrir pela reportagem que o médico do vídeo não existia.

“Esse vídeo apareceu para mim. Uso muito o YouTube. Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível. Não eram coisas absurdas. Pela minha idade, até me considero esperta com computador, mas ainda não sei distinguir o que é IA e o que é real”, afirmou.

Ela contou que esse tipo de conteúdo aparece com frequência em seu feed porque saúde é um dos assuntos que mais pesquisa na internet. Seus comentários estão espalhados por vários canais de IA do tipo.

“Quando entro, aparecem vários vídeos. Aí acabo clicando para assistir.”

Celi disse que nunca seguiria recomendações de um vídeo para tomar ou interromper medicamentos e que é acompanhada pelo mesmo médico há mais de 20 anos.

A BBC News Brasil chegou até Celi depois de coletar cerca de 27 mil comentários publicados nos vídeos desses canais no YouTube e utilizar uma triagem para identificar relatos de mudanças de comportamento.

Dezenas de comentários atribuídos a pessoas que dizem ser idosas relatam ter seguido orientações dos “médicos” gerados por IA, seja iniciando tratamentos caseiros, seja interrompendo medicamentos já prescritos.

Juntos, esses canais já somam ao menos 70 milhões de visualizações, de acordo com levantamento da organização sem fins lucrativos CTRL+Z. A produção dos vídeos ocorre em “escala industrial”, segundo a organização: são cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias.

O levantamento aponta ainda indícios de uma operação em rede — a reportagem encontrou vídeos com conteúdo idêntico publicados em diferentes canais do mapeamento.

A partir desses dados, a BBC localizou vídeos com títulos praticamente iguais em inglês e espanhol, além de tutoriais que ensinam a produzir material para esse nicho, conhecido como “saúde sênior”.

Ele é apresentado como uma forma de faturar milhares de reais por mês trabalhando sozinho, apenas com um computador e ferramentas gratuitas de IA.

Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, diz que viu um dos vídeos por acaso, e que os seguintes vieram por recomendação do próprio YouTube.

“Deixou claro que se tratava de uma rede organizada, com conteúdos que se retroalimentavam impulsionados pelos algoritmos de recomendação”, disse.

Para a organização, a remoção dos vídeos não resolve o problema. “Nossa ideia não é fazer (de graça) o trabalho que o Google/YouTube deveria estar fazendo, mas sim que essas plataformas sejam responsabilizadas legalmente por incentivarem e lucrarem com conteúdos nocivos para a saúde pública”, diz Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z.

Em nota, o Google afirmou que todo o conteúdo do YouTube, inclusive gerado por IA, deve seguir as diretrizes da comunidade.

“Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real.”

A empresa diz que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA “para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo.” (Com informações da BBC News Brasil)

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