Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 21 de janeiro de 2026
A morte de Valentino Garavani, na segunda-feira (19), aos 93 anos, encerra um dos capítulos mais emblemáticos da história da moda do século XX e inaugura, ao mesmo tempo, uma inflexão simbólica no debate contemporâneo sobre o luxo global. O estilista foi a materialização de um modelo de luxo baseado em autoria forte, controle criativo e longevidade estética, pilares hoje tensionados por um ambiente marcado pela aceleração cultural, pela financeirização das marcas e por ciclos cada vez mais curtos de relevância.
Fundador da Maison Valentino em 1960, o criador construiu uma estética reconhecível à primeira vista, pautada por precisão formal, excelência artesanal e coerência ao longo do tempo. Esse conjunto permitiu à marca operar, por décadas, num território de alto valor simbólico em que desejo, reputação e raridade se retroalimentavam. Suas criações vestiram figuras centrais do imaginário global — de Elizabeth Taylor e Jackie Kennedy a Julia Roberts, Sharon Stone e Gwyneth Paltrow — consolidando uma relação direta entre moda, poder simbólico e legitimidade cultural.
Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas no mercado de luxo, a morte de Valentino representa, para além de uma perda criativa, um alerta estratégico. “Valentino operava em um modelo de luxo baseado em permanência. Seu trabalho nos lembra que valor, no luxo, não é construído por repetição ou visibilidade excessiva, mas por coerência estética e simbólica ao longo do tempo. Em um cenário cada vez mais orientado por performance de curto prazo, esse tipo de construção se torna raro e, justamente por isso, mais valioso”, analisa.
Segundo a especialista, o impacto da partida do estilista coincide com um momento de revisão estrutural do setor. “O luxo vive uma tensão clara entre densidade cultural e diluição simbólica. Grandes grupos buscam ampliar presença, acessar novos públicos e responder às dinâmicas digitais, enquanto o consumidor de alta renda se mostra mais atento à saturação estética, à perda de autoria e à homogeneização das marcas. A morte de Valentino reabre a discussão sobre até que ponto é possível ampliar alcance sem comprometer capital cultural”, afirma Tamara.
Trinca de ouro
Ao lado de nomes como Giorgio Armani e Karl Lagerfeld, Valentino ocupou o topo da moda internacional, mas construiu um percurso singular. Seu vermelho emblemático, a relação direta com clientes de altíssima fidelidade e a recusa sistemática a tendências efêmeras funcionaram como estratégia silenciosa de diferenciação. Em vez de disputar atenção, a marca consolidou presença. Em vez de acelerar ciclos, aprofundou códigos.
Para Tamara, esse legado impõe decisões concretas às casas de luxo contemporâneas. “O setor precisará tentar balancear operar como entretenimento cultural de alta rotatividade e como sistema de valor simbólico de longo prazo. O futuro do luxo não está em reproduzir fórmulas, mas em resgatar princípios como autoria, tempo, rigor criativo e inteligência cultural como ativos estratégicos reais”, conclui.
Com a partida de Valentino Garavani, o luxo perde um de seus maiores arquitetos e ganha um espelho. Em um cenário marcado por excesso de estímulo e imagens, o estilista deixa como ensinamento central a ideia de que marcas verdadeiramente desejáveis não se constroem pelo ruído, mas pela capacidade de atravessar o tempo com consistência, contenção e autoridade simbólica. Com informações do jornal O Globo.