Segunda-feira, 06 de Abril de 2026

Home Colunistas A sociedade secreta das camisetas pretas

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Nos últimos tempos, tenho observado um pequeno fenômeno contemporâneo: a grande quantidade de pessoas usando camisetas pretas. Até mesmo nos dias mais quentes e ensolarados.

Entre profissionais de backstage, sonorização e equipes técnicas, isso sempre foi comum. Eu mesmo adotei o estilo há cerca de um ano, pela simplicidade, elegância e praticidade.

Mas o curioso é que isso começou a escapar dos bastidores… e ganhar as ruas. Ontem mesmo fui ao supermercado. Nada mais comum, nada mais banal… mas algo estava estranho. Parecia até que o mercado estava de luto.

Em uma única fila, cheguei a contar dez pessoas de camiseta preta.
Pensei por um instante: será que existe algum tipo de seita… ou é só coincidência?

Deixei a ideia de lado e segui meu caminho. Antes, passei na farmácia: cinco clientes, três de preto. Saí para a rua, agora já com o olhar treinado… e comecei a perceber o padrão.

No açougue, o atendente também vestia preto. E não eram só homens. Homens e mulheres. Jovens e idosos.

Coincidência? Pode ser…

Preto combina com tudo. Disfarça. Emagrece visualmente. É prático.
Mas, caminhando entre as gôndolas e pelos corredores da vida, me ocorreu outra coisa: será que a gente anda vestindo o que anda sentindo?

O País vive em tensão permanente. Discussões que não terminam. Instituições sob desconfiança. Gente cansada de brigar. Gente cansada até de opinar.

E o mundo… sempre à beira de alguma coisa. Uma guerra que ameaça começar. Uma economia que ameaça ruir. Uma crise que ameaça explodir.
É curioso como essa atmosfera pesa, mesmo quando ninguém fala nada.

E talvez seja justamente esse o ponto. A gente não fala, mas absorve. O clima entra pelas telas, pelas conversas de esquina, pelos comentários apressados, pelas manchetes que nunca terminam bem.

E quando vê… já está dentro. Talvez ninguém ali estivesse pensando em política. Talvez ninguém estivesse pensando em guerra. Talvez fosse só mais um dia comum, com promoções de carne e fila no caixa.

Mas o preto sempre carregou um simbolismo silencioso: Sobriedade. Defesa. Blindagem. Às vezes, luto.

E não só luto por pessoas, mas por certezas que já não existem mais. Por uma sensação de estabilidade que se perdeu. Por uma leveza que ficou para trás em algum momento que ninguém soube exatamente quando foi.

Não é que alguém acorde e diga: “Hoje vou me vestir de tensão geopolítica”. Mas o humor coletivo sempre escapa por algum lugar.

A moda também é um termômetro. E, muitas vezes, um abrigo. Uma forma silenciosa de se proteger do excesso.

Menos cor. Menos exposição. Menos ruído. Mais neutralidade. Mais controle. Mais… defesa.

E ali, entre o açougue e o corredor do arroz, tive a sensação estranha de que o mundo inteiro tinha escolhido a mesma cor. Talvez seja tendência. Talvez praticidade. Talvez coincidência. Ou, talvez, a gente esteja vestindo o peso que anda carregando.

Paguei minhas compras. Mas saí com uma pergunta na cabeça: Quando até as cores ficam sóbrias é o guarda-roupa que mudou ou é o espírito do tempo?

E confesso… Na dúvida, comecei a suspeitar que tinha entrado, sem querer, em alguma sociedade secreta. Passei a observar melhor… Qual seria o código? Um olhar discreto? Um aceno sutil? Um aperto de mão com três toques?
Nada…

Ninguém piscou pra mim. Ninguém me reconheceu. Ou pior… Talvez eu já tenha sido aceito… e nem percebi.

Se for isso, pelo menos uma coisa é certa: a mensalidade é barata, e o uniforme eu já tenho.

Ei, você aí, tem uma camiseta preta no armário? A próxima reunião é quinta-feira.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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