Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de fevereiro de 2026
Com o fim do Carnaval, um dilema relacional volta a ganhar destaque nas discussões sobre comportamento amoroso: o impacto emocional de acordos para abrir o relacionamento apenas durante a folia. Um estudo recente realizado pelo Gleeden, plataforma de relacionamentos extraconjugais, com 1.145 pessoas, revela que 87% dos brasileiros acreditam que a infidelidade no Carnaval é mais aceitável do que em outras épocas do ano. A pesquisa também mostra que 36% das pessoas consideram a infidelidade mais compreensível no Carnaval do que em qualquer outra época do ano.
Esse contexto de exceção social, marcado por música, festas e maior consumo de bebidas, cria um ambiente em que decisões emocionais tendem a ser tomadas sob influência de estímulos momentâneos. Para o psicanalista Lucas Scudeler, especialista em comportamento humano e relacionamentos, o foco da análise não deve ser apenas se a prática acontece, mas como e por que esse tipo de acordo é fechado dentro dessa sensação de liberdade temporária.
Scudeler destaca que muitos acordos de abertura pontual não surgem de uma escolha legítima de formato de relação, mas sim de estratégias para amenizar frustrações, expectativas ou tensões entre parceiros. “O Carnaval funciona como um período de suspensão simbólica das regras. Decisões tomadas nesse contexto raramente são neutras. Elas vêm carregadas de pressão emocional, expectativas idealizadas e tentativas de evitar conflitos mais profundos no relacionamento”, explica.
Acordos sob pressão e a temporalidade
Segundo o especialista, quando um acordo é feito para aliviar uma tensão imediata, ele tende a cobrar um preço emocional posteriormente, especialmente quando retornam à rotina após a folia. Para ele, muitas pessoas consentem racionalmente, mas não estão preparadas emocionalmente para integrar as consequências dessa escolha depois.
Relações não monogâmicas sustentáveis exigem estrutura emocional, comunicação contínua e alinhamento profundo de valores, ressalta Scudeler. Quando a abertura ocorre de maneira pontual, como apenas durante o Carnaval, ela não testa a liberdade, mas sim a resiliência emocional dos envolvidos, com consequente impacto no dia a dia.
O relacionamento no pós-Carnaval
Relatos de casais apontam que nem sempre há um episódio explícito que marque o problema pós-festa; o que surge é um distanciamento progressivo, desgaste silencioso ou frustração crescente. Para o especialista, isso ocorre porque acordos feitos em contextos emocionais intensos tendem a revelar fragilidades já existentes na relação.
“Quando um relacionamento só suporta a realidade criando exceções extremas, isso pode indicar dificuldade em lidar com desejo, frustração e limites claros”, analisa Scudeler.
Scudeler também chama atenção para a banalização de formatos relacionais alternativos no discurso cultural contemporâneo. Ele lembra que relações abertas que funcionam de maneira saudável não nascem de improvisos ou de experimentos de curto prazo, mas sim de negociações cuidadosas e continuadas.
Para o especialista, a discussão precisa migrar do terreno moral para o campo estrutural e emocional. “A questão não é se abrir o relacionamento é certo ou errado. A questão é se um acordo feito para durar quatro dias consegue sustentar os meses seguintes”, finaliza. Com informações do portal O Globo.