Terça-feira, 06 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 4 de janeiro de 2026
A imagem da madrugada é de um fato inédito. Nunca na história houve uma intervenção militar dos Estados Unidos em solo sul-americano.
A Venezuela foi o alvo, mas esse é um ataque também a um princípio do direito internacional: o da soberania e da integridade territorial de um país independente. Isso parece um consenso entre especialistas no assunto.
“A primeira violação é a da não interferência nos assuntos de outro país, segundo é o sequestro de uma liderança política desse país conforme os seus interesses. O mais preocupante é a não autorização do Congresso. Segundo as palavras do presidente Trump na fala de hoje, o Congresso não era confiável o suficiente para que ele fosse informado disso”, disse Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM.
“A extração de Maduro e a possível queda do regime, que é o objetivo explícito de Donald Trump, serão comemorados na Venezuela. Mas isso não muda o fato de que se trata de uma violação patente e absurda de todas as leis internacionais”, disse Demétrio Magnoli, sociólogo e comentarista da GloboNews. “Os Estados Unidos estão dizendo explicitamente que a Doutrina Monroe está de volta. A ideia de que, o hemisfério ocidental, as Américas são um quintal dos Estados Unidos, onde a soberania nacional praticamente não vale”, concluiu Demétrio.
A doutrina proclamada no governo de James Monroe, ainda no início do século XIX, é assentada no conceito de “esfera de influência”.
A América Latina estaria dentro de uma zona estratégica onde Washington busca impedir a atuação de rivais externos e preservar a hegemonia — ainda que isso leve a um choque com a soberania dos países.
O sistema internacional atual é como um tabuleiro de zonas de influência em disputa, com crescente competição entre as chamadas potências, além das resistências regionais.
A esfera da Rússia tem o núcleo nos ex-territórios soviéticos: na Ucrânia e no Cáucaso, e tem o objetivo principal de manter o status de potência e impedir o avanço da Otan — Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Na Ásia Central, no Oriente Médio e na África, os russos buscam manter influência geopolítica para garantir acesso a recursos naturais.
A China tem como centro estratégico a Ásia Oriental e Central. Os chineses usam a economia e os investimentos como ferramenta principal para expandir a influência para a África, a América Latina e a Europa.
O que, na prática, permite à China ganhar mercados e reduzir a hegemonia dos Estados Unidos.
Nesse mapa, as Américas aparecem como principal eixo de influência dos Estados Unidos, e o governo Trump trata a região como prioridade.
A Venezuela tornou-se um exemplo típico de disputa entre esferas de influência.
A Rússia abastece o país com armas e, sobretudo, com nafta — um diluente indispensável para escoar o petróleo extrapesado venezuelano, vendido principalmente para a China, o maior competidor estratégico dos Estados Unidos.
“Trump, com essa ação, manda um recado para a China, para a Rússia, para o Irã, de que eles não devem ter aliados fundamentais aqui na América do Sul”, disse Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais da Faap e da FGV.
O risco é que essa ação do governo americano legitime atitudes semelhantes das outras grandes potências. “É bem visto inclusive pela Rússia ou pela China, porque a Rússia utiliza a mesma narrativa na hora de justificar sua interferência e sua invasão à Ucrânia”, disse o professor de Relações Internacionais da FGV-SP, Oliver Stuenkel.
“Um cínico diria, a Venezuela inteira para Donald Trump, meia Ucrânia para Vladmir Putin – e eu acrescentaria: no futuro mais ou menos distante Taiwan para Xi Jiping”, analisou Demétrio.
Neste sábado (3), Trump afirmou que vai administrar a Venezuela temporariamente. Também anunciou que uma empresa americana irá cuidar da extração do petróleo venezuelano. Ou seja, os EUA têm intenção de controlar o governo e a maior riqueza do país. Com informações do portal G1.