Domingo, 30 de Novembro de 2025

Home Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues Adulteração das bebidas expõe um mal maior: o perigo oculto nos alimentos industrializados

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Neste ano o noticiário estampou, dia após dia, a tragédia silenciosa da adulteração de bebidas por metanol. O tema, tão urgente quanto doloroso, foi aos poucos perdendo espaço, como se o perigo tivesse evaporado junto com o líquido do copo. Mas a vida, essa mestra paciente, insiste em nos lembrar que os venenos nem sempre têm cheiro forte — às vezes são incolores, discretos e se escondem atrás de um rótulo bonito.

Se é verdade que as bebidas adulteradas chocaram o país, também é verdade que, nas prateleiras dos supermercados, repousam outros riscos — embalagens coloridas que prometem sabores fáceis, mas que carregam consigo um punhado de substâncias que, reunidas ao longo dos anos, podem adoecer o corpo com a mesma lentidão com que a ferrugem corrói o ferro.

O alimento, tão sagrado quanto o ar, passou por transformações profundas desde a metade do século XX. Refinamos açúcares até torná-los quase invisíveis, polimos o sal até ele brilhar como neve, ensinamos os grãos a durarem meses em prateleiras, e construímos uma indústria capaz de inventar gostos que a natureza nunca sonhou.

Recordo, com saudade, os doces que fazia na infância em Bagé: a ambrosia de panela pesada, o arroz de leite que perfumava a casa, a figada feita com os frutos do quintal. Não eram perfeitos — talvez faltasse um pouco de açúcar ou sobrasse um pouco de tempo no fogo — mas eram honestos, sem aditivos escondidos ou conservantes de nomes impronunciáveis.

O “Relatório Órion”, do médico Marcio Bontempo, alertava já nos anos 1980 para os riscos dos alimentos industrializados, aditivos e agrotóxicos. Foi minha primeira porta de consciência alimentar, mostrando que nem tudo que brilha nas prateleiras é alimento — às vezes é apenas química disfarçada de comida.

Com o passar dos anos, aprendemos a delegar ao pacote o trabalho da cozinha. E, ao mesmo tempo, aprendemos a conviver com novas doenças silenciosas: pressão alta, diabetes, inflamações crônicas, desequilíbrios metabólicos. O corpo humano, tão antigo quanto o planeta, não foi feito para as cargas excessivas de sal refinado, para o álcool clandestino misturado a metanol, nem para montanhas de carboidratos ultraprocessados que chegam ao sangue com a velocidade de um raio.

Aqui vale um reconhecimento importante: o Brasil possui sistema de vigilância sanitária estruturado, e órgãos como a ANVISA e o MAPA desempenham papel essencial ao estabelecer limites, fiscalizar riscos e orientar o país. Contudo, a ciência evolui depressa. A Europa adota o chamado princípio da precaução — na dúvida razoável, suspende-se o uso. Já os Estados Unidos seguem uma lógica mais permissiva, baseada na necessidade de prova concreta do dano.

E nós, brasileiros, seguimos no meio do caminho, fazendo avanços, revisões e, como toda nação em construção, buscando acertar mais do que errar. Alguns aditivos já proibidos lá fora — como certos corantes e antioxidantes — ainda circulam por aqui dentro dos limites normativos. Não por descaso, mas porque a engrenagem do conhecimento científico nunca para de girar, e cada país reage conforme suas possibilidades, consensos e ritmo regulatório.

Essa reflexão não é um dedo apontado para ninguém. É apenas um convite. Um convite à mesa, aliás — o lugar mais democrático da casa. Talvez seja hora de abrirmos menos latas e descascarmos mais frutas, de voltarmos ao cheiro das panelas simples, de redescobrirmos a textura dos legumes, o frescor das verduras, a verdade das carnes bem escolhidas.

A forma como nos alimentamos hoje é a carta que escrevemos para o nosso futuro. O corpo, como uma horta, responde exatamente ao cuidado que recebe. Se lançamos nele produtos duvidosos, colheremos desgaste. Se o nutrimos com sabedoria, colheremos longevidade.

E é aqui que recordo um conselho precioso do Dr. Ênio Aguzzoli — médico admirado e referência de educação alimentar: o prato colorido. Esse gesto singelo, quase infantil, de misturar cores, texturas e sabores naturais devolve ao cotidiano uma beleza primitiva, quase poética.

Que tal, então, começarmos pelo simples? Um feijão com arroz bem feito, uma salada viva, uma fruta madura. E que cada prato colorido seja, ao mesmo tempo, um agradecimento e um compromisso: o de honrar o corpo que temos e a vida que desejamos prolongar.

Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv

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