Segunda-feira, 23 de Maio de 2022

Home Economia Alta nos preços do petróleo pressiona despesas da indústria e afeta até o setor calçadista. Saiba o que fica mais caro

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O aumento de 46% na cotação do petróleo nos últimos 12 meses não impactou apenas os preços dos combustíveis. Negociado em fevereiro do ano passado na faixa de US$ 65, o barril do Brent teve nesta semana em alta de 1,64%, cotado a US$ 94,98, maior patamar em sete anos e que atinge em cheio a indústria.

Antes de prosseguir com o texto, um parêntese sobre o Brent: trata-se de um petróleo mais leve, negociado na Bolsa de Londres (Inglaterra) com produção no mar do Norte da Europa e na Ásia. É utilizado mundialmente como preço de referência, ou seja: em notícias sobre o preço do barril de petróleo, o Brent é o mais citado.

Prosseguindo: derivados de petróleo servem de matéria-prima para uma gama de produtos — químicos, plásticos e têxteis, por exemplo — e isso se traduz em aumento de custos. O resultado são repasses ao longo da cadeia de produção que terminam no bolso do consumidor.

“A indústria é pressionada com a alta de preços das matérias-primas derivadas de petróleo e acaba repassando à cadeia produtiva e ao consumidor”, analisa Renan Sujii, estrategista da RIMS3 Capital, que acompanha o comportamento do preço do petróleo. “O transporte e a logística já estão mais caros com o aumento do preço dos combustíveis e do frete. Tudo isso se transforma em mais inflação.”

A indústria de plástico, por exemplo, viu subir mais de 100%, em média, o preço de insumos como polipropileno (utilizado na fabricação de sacos para grãos e fertilizantes a cadeiras plásticas, brinquedos e eletrodomésticos, por exemplo). O mesmo vale para o polietileno (sacos plásticos, embalagens de biscoitos e massas, dentre outros).

O PVC também teve alta similar e é utilizado em embalagens de refrigerantes, água, alimentos e remédios. Presidente da Abiplast, José Ricardo Roriz Coelho ressalta que 80% dos itens da cesta básica brasileira são embalados em plástico:

“Espero que esse nível de aumento da matéria-prima não se repita porque seria um desastre, já que os consumidores arcariam com o aumento, especialmente os mais pobres”.

Dólar

Em 2021, as matérias-primas subiram no embalo da retomada da demanda, da alta do petróleo e do dólar valorizado. Este ano, com inflação alta, a demanda está mais fraca e o dólar dá sinais de alívio.

Ainda segundo Roriz, uma queixa do setor é a concentração do mercado na Braskem, petroquímica que é a maior produtora de resinas. “Não há concorrência na matéria-prima. Temos um oligopólio no fornecimento, o que facilita o repasse do preço à indústria”.

O dirigente também se queixa das tarifas de importação de matérias-primas, 14%. Nos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, na qual o Brasil tenta conquistar uma vaga), o índice é de 6%.

Para o analista de petróleo e gás da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, grandes e pequenas empresas têm dificuldade para segurar impactos dessa magnitude e precisam repassar ao menos parte ao consumidor. Além de insumos, há pressões de transporte, logística e energia com o uso de termelétricas que usam diesel.

Calçados e têxteis

A fabricante de calçados Usaflex, com quatro unidades industriais no Rio Grande Sul, viu aumento médio de 20% a 25%, no último ano, nas resinas termoplásticas usadas em solados e palmilhas. Em algumas resinas, a alta foi de 70%.

Para evitar preços ainda mais elevados, já que o petróleo continua subindo, e se prevenir de eventual falta de resinas, a Usaflex vem trabalhando com estoques reforçados. O diretor industrial da empresa, Marcelo Guimarães, comenta:

“Repassamos cerca de 10% (do aumento de insumos ao consumidor), o que reduziu nossa margem. Mas temos trabalhado para aumentar a produtividade e buscar novos fornecedores de matéria-prima de qualidade”.

Paulo Engler, diretor-executivo da Abipla, associação da indústria de higiene e limpeza, diz que frete e energia foram os fatores mais relevantes para o setor, incluindo embalagens e insumos. Com produtos de menor valor, não foi possível repassar tudo, o jeito foi reduzir a margem.

Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) cita reajuste de 32% no poliéster (matéria-prima com origem no petróleo, presente em roupas e cortinas), entre janeiro de 2020 e janeiro deste ano, acompanhando a escalada do barril:

“Há relação direta de reajuste de preços de matérias-primas com a alta do petróleo. E há o caso do elastano da China, que teve reajuste de 115% no mesmo período com o crescimento da demanda por esse produto e dólar mais caro”.

Nos têxteis, considerando malhas e tecidos, a inflação de “porta de fábrica”, sem impostos e fretes, medida pelo Índice de Preços ao Produtor (IPP), do IBGE, ficou em 27% ano passado, refletindo a alta das matérias-primas. Já o IPP do vestuário subiu 16%, com a inflação ao consumidor subindo 10%. Isso mostra que o reajuste de matérias-primas não chegou totalmente ao varejo.

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