Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 21 de janeiro de 2026
Principal marca econômica do primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, as tarifas sobre importações geraram incertezas, mas não chegaram a causar o impacto negativo esperado por economistas. A atividade econômica nos Estados Unidos desacelerou, mas de forma suave. A inflação chegou até a recuar, apesar de seguir acima da meta – de 2%.
“O governo chegou gerando muito ruído com a agenda protecionista. A economia sentiu os impactos, mas os efeitos não foram dramáticos a ponto de causarem danos significativos ao longo de 2025”, diz o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria. “Havia visões mais pessimistas no começo do ano.”
O pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e do banco BTG Pactual, Samuel Pessôa, afirma que “não dá pra dizer que a economia americana está indo mal”. “As tarifas afetaram menos a inflação do que se imaginava. O repasse para os preços está acontecendo lentamente.”
Na análise do economista Tomás Urani, do Santander, há sinais de que a economia está desacelerando – em parte porque o ano começou com o juro em patamar elevado –, apesar de ela ter se mostrado resiliente. “Não é um cenário de recessão. É mais de um pouso suave.”
O BTG Pactual projeta que o PIB dos EUA tenha crescido 2,2% no ano passado, após uma alta de 2,8% em 2024. A inflação, cujo dado de 2025 já foi divulgado, recuou dos 2,9% de 2024 para 2,7%.
A resiliência da economia americana pode ser explicada por um aumento da produtividade, pelo crescimento dos investimentos em inteligência artificial (IA) e pelo fato de Trump ter voltado atrás na magnitude das tarifas. Os especialistas apontam, no entanto, que, no longo prazo, a tendência é de deterioração do cenário econômico.
A atividade econômica nos EUA começou 2025 fraca, após empresários terem se antecipado à implementação das tarifas – que encareceria as mercadorias – e adquirido estoques antes mesmo da posse de Trump. Isso fez com que o consumo caísse no primeiro trimestre, puxando o PIB para baixo.
Conforme os meses foram passando e as tarifas de importação foram sendo negociadas, o PIB se recuperou. Também ajudou a alavancar a economia a aprovação de um pacote de corte de impostos em julho, que impulsionou o consumo. Entre as medidas do pacote estão a isenção de imposto de renda sobre gorjetas e horas extras e o aumento da isenção do imposto sobre herança.
Investimentos em IA
Outro fator importante para o crescimento do PIB foram os investimentos em inteligência artificial (IA). “Há muito dinamismo em inovação tecnológica nos EUA, e o ciclo atual tem sido puxado por investimento em IA. Uma parte significativa dos investimentos ocorreram por conta disso”, diz Urani.
Para Samuel Pessôa, os investimentos em IA devem aumentar a produtividade nos próximos anos, mas ainda não é possível saber em qual magnitude. Ainda assim, a produtividade nos EUA já vem crescendo. “Essa atividade mais forte no segundo semestre não vem de um mercado de trabalho muito forte. Isso sugere, portanto, que a produtividade melhorou um pouco.”
Mercado de trabalho
De fato, o mercado de trabalho vem perdendo ímpeto, ainda que lentamente. Trump começou seu mandato com uma taxa de desemprego em 4% e terminou 2025 com ela em 4,4%. Segundo os economistas, os empresários ficaram mais inseguros para contratar diante do tarifaço ao mesmo tempo em que a oferta de mão de obra diminuiu devido às políticas anti-imigrantes.
“O emprego está esfriando claramente. Até por isso tem a pressão (de Trump) para que o Fed (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) corte o juro”, diz Campos Neto, da Tendências. “O mercado de trabalho esfria quando há insegurança e incerteza, e as políticas migratórias têm causado ruído em setores mais intensivos em mão de obra, como na construção civil e no comércio”, acrescenta.
Essa deterioração lenta no mercado de trabalho e a incerteza causada pelo tarifaço se refletem no otimismo do consumidor. Em janeiro do ano passado – mês da posse de Trump –, o indicador que mensura a confiança do americano na economia estava em 71,7 pontos. Em dezembro, havia caído para 52,9, o que significa uma retração de 35,5%, de acordo com pesquisa feita pela Universidade de Michigan.
Projeções
Os economistas divergem em relação ao futuro da economia americana. O BTG Pactual projeta um crescimento de 2,6% no PIB para 2026, o que significaria uma alta na comparação com 2025. O Santander estima estagnação.
No longo prazo, no entanto, a expectativa é de um cenário mais difícil devido à guerra comercial e ao desajuste fiscal. Samuel Pessôa afirma que a taxa de produtividade pode cair por causa das tarifas, ainda que a inteligencia artificial reduza esse impacto. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.