Domingo, 11 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de janeiro de 2026
Após 25 anos de negociações, a União Europeia (UE) finalmente aprovou a assinatura de um acordo comercial com o Mercosul, que, quando formalizado, constituirá a maior zona de livre comércio do mundo.
A despeito da ferrenha oposição liderada pela França, a Itália, que frustrou a assinatura do acordo em dezembro passado, rendeu-se à realidade, garantindo a maioria qualificada entre os 27 Estados-membros da UE para que o acordo fosse aprovado. Com o “sim” italiano, chegou-se ao quórum mínimo de representantes exigido para a assinatura de tratados, formado por 65% da população do bloco europeu.
A expectativa agora é de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, venha à América do Sul na semana que vem para assinar o acordo. Tanto ela como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificaram o sinal verde da UE como “um dia histórico para o multilateralismo”. De fato, a aprovação de um acordo de livre comércio dessa envergadura representa o triunfo da diplomacia, da racionalidade e das relações internacionais baseadas em interesses comuns. Em um cenário de desmantelamento acelerado da ordem internacional vigente pelo menos desde o fim da 2.ª Guerra, sem falar dos múltiplos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump, ao comércio global, a defesa do multilateralismo nunca foi tão necessária como na atual quadra histórica.
Nesse contexto, um acordo de livre comércio entre dois blocos regionais no qual vivem mais de 700 milhões de pessoas, que por sua vez respondem por cerca de um quarto do PIB global, é realmente notável.
Mas, embora a sinalização positiva que a UE deu ao tratado com o Mercosul seja inegavelmente digna de celebração, o caminho para que suas disposições sejam implementadas ainda passará por muitas etapas – e desafios.
Mesmo que seja assinado na semana que vem, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu, o que, em uma perspectiva otimista, poderia ocorrer até o final de abril. Já se antecipa, porém, uma oposição ferrenha do lobby agrícola europeu, que pelo menos na França é extremamente poderoso, da esquerda à direita.
Tragada por suas disputas internas de poder, da França só se pode esperar mais ataques virulentos aos produtos do Mercosul, especialmente aos agrícolas, nos quais os países sul-americanos são extremamente competitivos. Não será surpresa se protestos e campanhas contra a carne do Brasil e da Argentina, por exemplo, intensificarem-se nas próximas semanas. Nesse sentido, é fundamental que o competente agronegócio sul-americano não dê qualquer motivo para que os europeus posterguem ainda mais a implantação do acordo.
Na Europa, os oposicionistas ao tratado de livre comércio, que não raro lançam acusações descabidas à produção do Mercosul, estarão mais atentos do que nunca a quaisquer eventuais falhas que eles possam enquadrar como violação de regras ambientais. Do lado sulamericano, a rara união que se vê em torno do tratado com a UE, em que pesem as diferenças ideológicas entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, deve seguir prevalecendo. Essa postura é fundamental diante da fragmentação europeia.
Pressionada por Trump e pelo avanço até agora imparável da China sobre o comércio europeu, sobretudo o de produtos industrializados, a Europa não tem motivo algum para seguir dando as costas ao Mercosul.
Do mesmo modo, os países do bloco sul-americano, que têm na China seu principal parceiro comercial, têm vivido relação cada vez mais assimétrica com o gigante asiático, que acaba de impor tarifas de exportação de 55% para a carne do Brasil e da Argentina que excederem as cotas determinadas por Pequim.
Uma vez em vigor, os benefícios do acordo entre o Mercosul e a União Europeia se materializarão de forma progressiva, à medida que as tarifas forem reduzidas ao longo dos anos. Justamente por isso, cabe aos países sul-americanos agir com pragmatismo e coesão para impedir que resistências políticas e corporativas retardem ainda mais sua implementação. Protelar o acordo não atende a interesses legítimos: apenas priva consumidores e economias de ambos os lados do Atlântico de ganhos concretos em competitividade, crescimento e integração em um mundo cada vez mais fragmentado. (Opinião/O Estado de S. Paulo)