Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 26 de janeiro de 2026
As investigações em torno do Banco Master indicam que grande parte da estrutura da instituição estava baseada em operações consideradas irregulares, fraudulentas ou enganosas. Até mesmo a área apontada como uma das mais sólidas do banco passou a ser questionada: o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) identificou irregularidades em 74% das operações de crédito consignado realizadas pelo Banco Master entre 2021 e 2025.
Antes disso, já constavam no radar das autoridades suspeitas envolvendo R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios vendidos ao Banco de Brasília (BRB), além de uma complexa estrutura de fundos e ativos supostamente inflados para elevar artificialmente o patrimônio da instituição. Essas operações, feitas em parceria com a gestora Reag DTVM, somariam outros R$ 11,5 bilhões, segundo o Banco Central (BC).
Parte dessas operações constava com destaque nas demonstrações financeiras mais recentes do banco, referentes ao ano de 2024. Embora os dados não fossem detalhados, a administração ressaltava os empréstimos consignados — sobretudo por meio do Credcesta —, operações estruturadas para empresas, como crédito corporativo via fundos, e o crescimento na venda de carteiras de crédito. Procurado, o Banco Master não respondeu aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem. A Reag também não se manifestou.
Na prática, segundo as investigações, as operações sob apuração teriam como objetivo aparente reforçar a percepção de solidez financeira do banco para viabilizar a continuidade de seus negócios. Isso ocorreria por meio da captação agressiva via Certificados de Depósito Bancário (CDBs), com remuneração acima da média do mercado — amparada pela divulgação da proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) —, do uso de fundos suspeitos de terem seus ativos inflados e de uma carteira de crédito consignado considerada frágil. As apurações indicam que o balanço apresentava ativos artificialmente elevados, enquanto os passivos seriam significativamente maiores.
“O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo”, afirmou o dono do banco, Daniel Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal.
Fora das demonstrações contábeis, porém, a situação seria bem diferente. “Na vida real, o banco dificilmente pararia em pé”, avaliam especialistas.
Segundo Paulo Henrique Carnaúba, professor do programa de finanças avançadas do Insper e advogado especialista em fraudes, a dinâmica de uma quebra bancária costuma seguir um padrão. “A instituição cresce, ganha renome e credibilidade e passa a testar o uso do dinheiro de terceiros em operações delicadas ou irregulares. Quando isso funciona e não há punição, a prática tende a se intensificar”, afirma.
Com o tempo, explica Carnaúba, a situação se torna insustentável. “A bola de neve cresce até o banco se tornar insolvente. Nesse ponto, ou o controlador busca um aporte de capital ou passa a fabricar ativos e buscar liquidez de forma agressiva”, diz. “Tudo o que está sendo investigado parece se enquadrar em estratégias para criar uma aparência de solidez e liquidez no balanço e esconder um problema maior e mais antigo.”
Para o especialista, eventuais fraudes seriam um meio para mascarar um desequilíbrio estrutural entre ativos e passivos. “A estratégia geral aparenta ser a criação ou atração de ativos que gerem entrada de recursos e evitem a intervenção do BC”, afirma. “Historicamente, isso não funciona. São operações complexas, que envolvem muitos interesses, e normalmente representam apenas a ponta do iceberg.”
O destino dos recursos sob suspeita de fraude ou desvio ainda será esclarecido pelas investigações. “Desde 2023 já circulavam rumores sobre a falta de solidez do Master”, afirma Carnaúba. “Se houve demora na atuação do Banco Central, isso também será apurado, mas é evidente que existiu forte vontade política para que a intervenção não ocorresse.”
De acordo com Luis Miguel Santacreu, analista da agência de classificação de risco Austin Rating, não é possível determinar, apenas com base nas informações públicas, quais operações do Banco Master eram regulares ou em que proporção. “Somente o interventor terá acesso completo a esses dados, após a apuração das autoridades competentes”, diz.
Ainda assim, segundo ele, os dados disponíveis indicam uma gestão agressiva. “O Master combinava uma política arrojada de tesouraria e captação de recursos com investimentos em ativos ilíquidos, como precatórios e participações em empresas em dificuldade”, afirma. “Esse descasamento entre ativos e passivos elevava os riscos a níveis superiores aos recomendados.”