Sexta-feira, 31 de Julho de 2026

Home Brasil Brasil apreende 100 mil armas por ano, mas fluxo do crime muda, diz análise

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O mercado ilegal de armas no Brasil continua em expansão e passa por uma mudança de perfil, com maior circulação de armamentos de alto poder de fogo e crescimento do abastecimento a partir do mercado interno. A conclusão é de uma análise do Instituto Sou da Paz baseada em dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em 2025, foram apreendidas 107.746 armas de fogo no país, o segundo maior número da série entre 2021 e 2025. Segundo o estudo, o Brasil está entre os países que mais recolhem armas ilegais no mundo. Os pesquisadores lembram que cerca de 40 mil pessoas morrem por ano em decorrência de disparos de armas de fogo e que esses armamentos são responsáveis por 72,4% dos homicídios registrados no país.

Para o consultor sênior do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, e a diretora-executiva da entidade, Carolina Ricardo, o mercado ilegal de armas provoca impactos que vão além da segurança pública. Segundo eles, a violência armada sobrecarrega os sistemas de saúde e assistência social, reduz a produtividade da economia e gera custos estimados em 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

A pesquisa mostra uma mudança no perfil das armas apreendidas. Os revólveres perderam participação, passando de 38,6% para 33,5% entre 2021 e 2025. Já as pistolas cresceram de 20,7% para 27,8%, enquanto os fuzis praticamente triplicaram sua participação, passando de 0,7% para 2% das apreensões. As espingardas também registraram queda ao longo do período.

O levantamento identifica ainda alterações na distribuição geográfica das apreensões. O Sudeste reduziu sua participação de 41% para cerca de 36% do total nacional, enquanto o Nordeste passou de 25% para 33%, movimento atribuído à expansão de facções criminosas, às disputas por território e à reorganização do crime organizado na região.

Entre 2019 e 2023, as polícias estaduais e a Polícia Federal apreenderam, em média, mais de 109 mil armas por ano. Segundo o Instituto Sou da Paz, esse volume colocaria o Brasil na segunda posição mundial em apreensões, atrás apenas dos Estados Unidos. Cerca de 98% das armas são recolhidas pelas polícias Civil e Militar, enquanto as forças federais respondem pelos 2% restantes.

Os pesquisadores afirmam que o mercado legal brasileiro se tornou a principal fonte de abastecimento do crime organizado. No Sudeste, 57,3% das armas apreendidas entre 2018 e 2023 eram de fabricação nacional. Os desvios ocorrem por meio de compras realizadas por “laranjas”, furtos e roubos de armas de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores), além de desvios envolvendo empresas de segurança privada e até armamentos sob custódia do Estado.

Embora o tráfico internacional continue existindo, principalmente por meio de armas exportadas para países vizinhos ou adquiridas nos Estados Unidos e contrabandeadas para o Brasil, o estudo aponta que esse fluxo perdeu espaço para o abastecimento interno. Os pesquisadores atribuem essa mudança à redução dos custos e riscos do desvio doméstico, à menor punição em comparação com o tráfico internacional e à ampliação do acesso a armas de maior calibre no mercado legal.

O levantamento também chama atenção para o crescimento da fabricação clandestina de armas no país. Além das submetralhadoras artesanais, os especialistas identificaram o surgimento de esquemas totalmente nacionais de produção de fuzis clandestinos e armas sem identificação de origem, indicando um novo estágio de sofisticação do mercado ilegal brasileiro.

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