Segunda-feira, 23 de Maio de 2022

Home Brasil Brasileiros que dizem ter contraído coronavírus são o dobro da estatística oficial

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Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha indica que um de cada quatro brasileiros com idade a partir de 16 anos afirma ter recebido diagnóstico de coronavírus desde o início da pandemia (há 22 meses). Isso representa quase 42 milhões de pessoas infectadas, quase o dobro do total de casos registrados oficialmente no País.

O levantamento foi realizado por telefone nos dias 12 e 13 de janeiro, com 2.023 pessoas em todos os Estados. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Conforme o Datafolha, 25% dos entrevistados disseram ter feito teste que confirmou a infecção pelo vírus, o que significa 41,95 milhões de contaminados desde março de 2020. Os registros oficiais, coletados pelo consórcio de imprensa, somavam até a última quinta-feira (13) um acúmulo de mais de 22,8 milhões de testes positivos.

Os dados oficiais de casos reunidos pelo consórcio se referem a todas as idades. Já os do Datafolha só indicam as infecções em quem tem a partir de 16 anos, o que aponta para uma subnotificação ainda maior nas estatísticas.

Para especialistas ouvidos pelo jornal “Folha de São Paulo”, a diferença entre os números não surpreende, já que o Brasil tem problemas na sistematização dos dados de infectados. “Em quase dois anos desde o início da pandemia, o não há sequer padronização para o envio dos dados a serem contabilizados pelo governo federal”, afirma um especialista.

Soma-se a isso o alto número de testes rápidos feitos em farmácias ou unidades volantes e que não entraram nas estatísticas oficiais, além de problemas dos sistemas de informação entre municípios, Estados e Ministério da Saúde e até mesmo a falta de estímulo das equipes para a notificação dos casos positivos.

Subnotificação

“Os casos oficiais representam apenas a ponta visível do ‘iceberg’. A parte submersa, que são os casos não captados pela estatística oficial, é muito maior. Isso decorre de uma política fracassada de testagem”, aponta o epidemiologista gaúcho Pedro Hallal, coordenador do estudo “Epicovid-19”.

“O dinheiro do povo foi usado para produzir placebo, a cloroquina, e não para investir em testes ou máscaras, que são coisas que realmente funcionam para frear a pandemia”, lamenta.

Os dados apontam ainda que a subnotificação tem aumentado no País. Cerca de 3% dos entrevistados disseram ter tido covid nos últimos 30 dias, o que representa 4 milhões de pessoas. O número é seis vezes maior que o indicado pelos registros oficiais do período: 621.530 casos positivos, conforme o consórcio de imprensa.

 

Segundo os especialistas, o aumento da subnotificação no último mês está relacionado ao apagão de dados que ocorre no país desde que os sistemas do Ministério da Saúde foram derrubados por ataques de hackers, em dezembro, e também à chegada da variante ômicron.

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O médico infectologista Esper Kallás, professor da USP e colunista da Folha, explica que, por ser altamente transmissível, a ômicron tem contaminado tanto as pessoas que já tiveram Covid quanto as que já foram vacinadas contra a doença, por isso, a tendência é de aumento da subnotificação. “Os dados do governo sempre ficam muito aquém da realidade.”

A pesquisa do Datafolha mostra também que o número de pessoas com sintomas que podem ser de Covid nos últimos 30 dias é elevado —​muito superior ao dos que dizem ter contraído o vírus e recebido teste positivo.

Dos entrevistados, 30% disseram ter tido tosse e nariz entupido (o que representa 50,3 milhões de pessoas), 22% relataram ter tido febre (36,9 milhões) e 9%, falta de ar (15,1 milhões), no período.

Apesar do alto percentual de pessoas com sintomas, só 17% dos entrevistados dizem ter feito exame para a Covid. Para os especialistas, isso ocorre em razão da indisponibilidade de insumos e da ausência de recomendação clara para a testagem de casos suspeitos. O resultado é a detecção do vírus apenas nos casos mais sérios e/ou que demandam internação.

 

A pesquisa mostra ainda que a maior proporção de pessoas com testes positivos para a doença está entre os de maior renda. Entre aqueles que têm renda superior a 10 salários mínimos, 37% disseram ter recebido teste positivo para o vírus. Já entre os que têm renda de até 2 salários mínimos, 19% foram detectados com Covid.

Os mais jovens também relatam ter sido mais contaminados. Na faixa etária de 16 a 24 anos, 28% disseram ter recebido teste positivo para a Covid. Entre os que têm 25 a 34 anos, foram 29%. Entre 35 e 44 anos, 31%. A proporção cai para 25%, entre 45 e 59 anos, e 14%, para quem tem 60 anos ou mais.

 

O médico sanitarista Claudio Maierovitch, da Fiocruz de Brasília, diz que a testagem no Brasil não tem servido para controle da doença, ou seja, para isolar as pessoas, orientar sobre a quarentena ou qualquer outra estratégia de vigilância.

“A testagem está servindo apenas para contabilidade. Aquilo que a gente espera da vigilância em saúde ou da vigilância epidemiológica está se resumindo à contagem de casos. Se não serve para nada, é mais um motivo para as pessoas não se preocuparem em notificar. Se a informação não é útil, as pessoas deixam de alimentar o banco. Isso acontece em vários sistemas de informação”, diz Maierovitch, que já presidiu a Anvisa e foi diretor de vigilância de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde.

Os especialistas explicam que uma boa política de testes, como a adotada no Reino Unido e na Alemanha, envolve a testagem assistencial (de pessoas com sintomas ou que tiveram contato com alguém doente), amostral (para identificar assintomáticos) e a de vigilância genômica (para identificar variantes). “Em cada uma das três o Brasil é um fracasso”, resume Hallal.

Para Wallace Casaca, coordenador do ​Info Tracker, sem os dados de infectados, o Brasil administra a pandemia às cegas e, por isso, não consegue adotar medidas para evitar a cadeia de transmissão do vírus.

“Não há uma visão fidedigna do vírus no país e só conseguimos entender o tamanho do problema quando explodem os dados de internação e óbito, que é quando há muito pouco a fazer”, diz.

Para o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da USP, a subnotificação é mais um capítulo das coisas mal explicadas da gestão da pandemia de Covid no Brasil. “Onde estão os números?”

Uma exigência do Ministério da Saúde também pode explicar parte da subnotificação de casos. Desde agosto de 2021, a pasta passou a pedir a inclusão do número de lote e do nome do fabricante dos testes de antígeno para a notificação dos casos identificados por meio deles na plataforma e-SUS Notifica.

Desde então, a quantidade de resultados positivos e negativos provenientes desses testes sofreu uma queda abrupta. O efeito da nova regra atinge principalmente o registro dos casos sintomáticos leves e que podem ajudar a entender a transmissão do coronavírus.

Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma (associação das grandes redes de drogarias, onde são ofertados os testes rápidos de antígeno), diz que as unidades nunca deixaram de enviar as notificações, mas encontram dificuldade para o registro por falta de padronização no país.

“Somos obrigados a enviar as notificações, mas não sabemos como essas informações são processadas, já que cada município e estado tem regras diferentes. Em alguns locais, devemos informar à autoridade sanitária do município ou ao estado, outros liberam diretamente ao Ministério da Saúde. O Brasil tem uma colcha de retalhos dessa regra e não sabemos qual o tratamento que se dá aos dados desses testes”, diz.

Segundo dados da associação, somente nesta quinta-feira (13), as farmácias do país realizaram 86 mil testes de Covid, com uma positividade de 39,25%, o que significa a identificação de 33.755 infecções. O número representaria 30% dos casos contabilizados oficialmente pelos estados. No entanto, não é possível saber se esses dados estão de fato dentro dos registros oficiais.

COMO É FEITA A NOTIFICAÇÃO DE CASOS POSITIVOS NO BRASIL?
Desde abril de 2020, laboratórios públicos e privados são obrigados a notificar o Ministério da Saúde de todos os resultados de testes de diagnóstico de Covid em até 24 horas;
Devem ser notificados todos os resultados de testes, sejam positivos, negativos ou inconclusivos;
A notificação compulsória vale para qualquer que seja a metodologia de testagem utilizada, testes rápidos de antígeno, RT-PCR ou os de anticorpos, como o IgM e IgC;
A portaria do Ministério da Saúde, que regulamenta a regra, diz que os “exames laboratoriais feitos pelos laboratórios privados devem ser disponibilizados para os gestores locais do SUS para atualização e conclusão da investigação. O texto não deixa claro a quem esses resultados devem ser enviados, nem como os gestores locais devem tratar esses dados
Desde então, cada estado e município interpretou a regra à sua maneira, o que impediu a padronização do encaminhamento dos testes feitos na rede privada do país
Segundo a Abrafarma, há municípios que autorizam as drogarias e laboratórios a fazer a notificação direto à RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), plataforma do Ministério da Saúde criada em maio de 2020 para coletar os dados de Covid. Outros, no entanto, exigem que a notificação seja feita à vigilância sanitária municipal
Há casos em que os municípios disponibilizam link para a notificação digital, mas há casos em que as notificações ocorrem de forma manual. Há ainda a falta de padronização sobre o tipo de dado a enviar. Alguns municípios, por exemplo, só aceitam receber informações sobre testes positivos
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