Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 5 de janeiro de 2026
Capturado no sábado (3) em uma megaoperação dos EUA em Caracas, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, declarou-se inocente das acusações de narcoterrorismo e conspiração para importação de cocaína perante um tribunal federal americano em Nova York, nessa segunda (5).
Enquanto o chefe de Estado venezuelano era apresentado às autoridades judiciais americanas, a apenas alguns quarteirões dali, na sede das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU realizava uma reunião de emergência sobre os acontecimentos do fim de semana, com aliados e adversários de Washington expressando preocupações e condenando a ação militar, que a delegação americana tentou reduzir a uma operação policial que contou com auxílio militar.
A reunião emergencial do Conselho de Segurança — primeiro encontro do órgão em 2026 — começou por volta das 12h (em Brasília), quando fotos de Maduro escoltado por forças de segurança americana em direção ao tribunal já haviam circulado na imprensa internacional. Quando o líder chavista respondeu, em espanhol, como se declarava frente as acusações, as delegações diplomáticas ainda apresentavam suas posições no fórum multilateral.
A apresentação do líder venezuelano à Justiça no mesmo dia em que o principal fórum de segurança da ONU se reuniu para se pronunciar sobre o tema não passou despercebida pelos diplomatas. Em uma das primeiras manifestações da tarde, o embaixador da Rússia, Vasily Nebenzya, fez um apelo pela libertação de Maduro.
“Em relação aos relatos confirmados sobre a presença do presidente sequestrado da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa nos EUA… Hoje, como sabemos, eles estão em Nova York… Apelamos à liderança dos EUA para que liberte imediatamente o presidente legitimamente eleito de um Estado independente e sua esposa”, afirmou Nebenzya, em uma sessão marcada por críticas ao modus operandi americano.
Sequestro x prisão
A categorização da captura e extração do presidente da Venezuela como um “sequestro” foi tratada com maior profundidade pelo embaixador do país na ONU, Samuel Moncada, que repetiu o uso do termo para destacá-lo e classificou toda a ação como um “ataque armado ilegítimo sem qualquer justificativa legal”.
“Permitir que tais atos fiquem sem resposta efetiva equivale a normalizar a substituição do direito pela força e a erodir os fundamentos mínimos da segurança coletiva”, afirmou Moncada.
A delegação venezuelana se pronunciou após a fala do embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, que defendeu a regularidade da operação na Venezuela e negou que Washington estivesse “ocupando” o país sul-americano ou declarando guerra ao povo ou ao território venezuelano.
“Os EUA realizaram com sucesso uma operação policial cirúrgica, com apoio de militares, contra dois fugitivos procurados pela justiça americana: o narcoterrorista Nicolás Maduro e Cilia Flores”, afirmou Waltz.
Temores
No âmbito do Conselho de Segurança, diversos países observadores pediram a palavra, incluindo o Brasil, com muitos deles condenando a operação dos EUA como uma imposição por meio da força e uma violação de princípios básicos da Carta da ONU, como a solução pacífica de conflitos, respeito à soberania e à integridade territorial.
Entre os membros permanentes do Conselho de Segurança — aqueles que têm poder de veto —, a China se uniu à Rússia em uma condenação expressa. Pequim se mostrou “profundamente chocada” pelos “atos unilaterais, ilegais e ameaçadores dos EUA” e, além de pedir a libertação de Maduro, afirmou que “nenhum país pode agir como a polícia do mundo ou presumir ser a Justiça internacional”.
A França — aliado histórico dos EUA e integrante-chave da Otan — afirmou que a operação contrariou princípios legais e demonstrou preocupação com a “proliferação de violações da Carta da ONU e do direito internacional por um Estado investido da responsabilidade como membro permanente do Conselho de Segurança”. Em um posicionamento menos crítico, o Reino Unido cobrou respeito à ordem internacional, mas fez críticas ao governo Maduro.
Enquanto as condenações por parte de países da América Latina — como Brasil, Colômbia e México — estejam inseridas em um contexto regional, ligado diretamente à violação territorial na região, no caso dos europeus, o tema ganha relevância após anos de guerra entre Ucrânia e Rússia no Leste Europeu, conflito que Bruxelas denunciou amplamente pelo aspecto de tomada de território. (Com informações da AFP e do New York Times)