Quinta-feira, 30 de Abril de 2026

Home Política Congresso mantém parado desde 2023 projeto que limita abusos no serviço público

Compartilhe esta notícia:

O Estadão mostrou em reportagem recente que integrantes da Polícia Militar do Distrito Federal receberam cerca de R$ 40 milhões em penduricalhos, notícia que deveria ter produzido mais do que apenas perplexidade. Os dados são eloquentes: contracheques que chegaram a R$ 832 mil em um único mês, inflados por verbas classificadas como indenizatórias e que fazem mofa do teto constitucional. Não se trata de interpretação, mas de evidência de um sistema em que a exceção se tornou rotina.

Diante disso, seria razoável esperar que o Congresso Nacional priorizasse a regulamentação dos supersalários. Não é o que ocorre. O projeto de lei sobre o tema deu entrada há dez anos e segue parado no Senado desde 2023, à espera de relatório do senador Eduardo Gomes (PL-TO), sem perspectiva concreta de avanço. A demora já não pode ser confundida com prudência. Prudente seria impedir que o teto constitucional continue a ser contornado por expedientes laterais.

Sob a presidência de Davi Alcolumbre (União-AP) e na Comissão de Constituição e Justiça, comandada por Otto Alencar (PSD-BA), a proposta acumula pó. Não por falta de diagnóstico, mas por ausência de iniciativa. Há silêncios que dizem muito. Neste caso, indicam que limitar privilégios não ocupa, no Senado, o mesmo espaço reservado a pautas mais convenientes.

O contraste ajuda a esclarecer. No mesmo Congresso, propostas voltadas à ampliação de benefícios avançam com rapidez. No ano passado, o projeto que cria um fundo no Ministério Público, com previsão de uso de recursos inclusive de emendas parlamentares para custeá-lo, percorreu a Câmara e chegou a ser pautado no plenário do Senado no fim do ano, com relatório pronto do senador Weverton (PDT-MA), ainda que não tenha sido votado. Não é falta de tempo, mas de prioridade política para enfrentar distorções já consolidadas.

A diferença de tratamento é evidente. Quando se trata de ampliar vantagens, há fluidez. Quando se trata de impor limites, instala-se uma cautela que, na prática, paralisa. O Congresso, tantas vezes capaz de atravessar madrugadas por urgências discutíveis, mostra-se aqui admiravelmente paciente.

O caso da PM do DF apenas torna mais visível um mecanismo conhecido. Supersalários não decorrem de episódios isolados, mas de um sistema que permite, por meio de adicionais e indenizações, a superação recorrente do teto constitucional. A regra permanece no texto; sua eficácia, porém, depende da classificação contábil das verbas.

Tentativas recentes de enfrentamento concentraram-se em segmentos específicos, sobretudo no Judiciário. São avanços parciais. Ao evitar uma abordagem abrangente, o Congresso preserva um modelo em que o teto é formalmente respeitado, mas materialmente contornável. O resultado é uma desigualdade difícil de justificar num Estado que cobra ajuste fiscal da sociedade e tolera remunerações sem razoabilidade.

O projeto parado no Senado oferece a oportunidade de enfrentar essa distorção de forma mais ampla, ao definir com maior precisão quais verbas podem ser excluídas do teto e ao incluir carreiras diversas, como as militares. Sua estagnação, portanto, não é neutra: mantém as condições que permitem a repetição desses episódios.

Há, ainda, instrumentos mais abrangentes igualmente disponíveis e igualmente sem avanço. A reforma administrativa em discussão no Congresso prevê limites mais claros para remunerações no serviço público e enfrenta diretamente os supersalários, mas encontra resistência política e não sai do lugar, mesmo com apoio relevante a medidas específicas como o fim dos pagamentos acima do teto.

Não falta diagnóstico. Não faltam exemplos. Falta decisão. Cabe ao Congresso dar andamento a um tema que não sai do noticiário, por razões óbvias. Colocar esses projetos à deliberação é um passo elementar.

Manter os projetos parados é uma escolha. E seus efeitos são claros: preserva-se um regime em que o limite constitucional vale menos do que as brechas que o contornam. Se há disposição para criar benefícios, deve haver coragem para limitar abusos. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Política

Congresso mantém parado desde 2023 projeto que limita abusos no serviço público
Plano Safra desacelera com juros altos, mas crédito não parou, diz vice do Banco do Brasil
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Pampa Na Madrugada