Segunda-feira, 02 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 1 de novembro de 2026
A esta altura, em pleno 2026, quando todo mundo só conversa por mensagens curtas no celular, muitas dessas escritas por inteligência artificial, parece anacrônico que o tema da semana tenha sido uma… carta.
Mas é importante lembrar que a carta escrita por Flávio Bolsonaro é mais uma missiva entre tantas da história política brasileira. O senador, candidato derrotado à Presidência, divulgou seu texto após fugir para os Estados Unidos, a fim de evitar investigações de corrupção contra ele. O seu tom foi golpista: acusou fraudes na eleição em que perdeu para Lula, mas sem apresentar uma única prova, e numa primeira versão ainda disse que ele era o verdadeiro presidente do Brasil.
Essa carta de Flávio Bolsonaro foi bastante criticada, até mesmo por aliados, e provavelmente não terá nenhum efeito prático no país, além de um desserviço literário a uma tradição epistolar rara, intensa e contínua, como tem o Brasil. Ele é bem diferente da coleção de cartas que percorrem nossa História já a partir de 1500 e que são lembradas ao longo dos séculos.
“A carta é talvez o principal documento de nossa história política, que revela o que está diante dos nossos olhos, mas não temos coragem de ver”, diz Paulo Roberto Pereira, historiador, doutor pela UFRJ e autor de “Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil”. “Ela traduz a ânsia do povo de querer esse destino.”
Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, falou para Pero Vaz de Caminha, escrivão de sua frota, avisar ao Rei Dom Manuel I. Datada de 1º de maio de 1500, a célebre correspondência enviada por Caminha descreveu a terra encontrada pelos navegadores e, especialmente, seus habitantes. No trecho mais famoso, ele mostrou sua surpresa diante da nudez dos indígenas, “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.”
“Caminha escreveu a certidão de nascimento do Brasil. O nosso documento fundador é uma carta, que é também o primeiro texto literário, atento aos detalhes”, diz Pereira.
Escrever para o futuro
Já no século XX, poucas cartas brasileiras tiveram repercussão tão intensa quanto a Carta-Testamento de Getúlio Vargas, divulgada após seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. É aquela em que ele escreveu: “Saio da vida para entrar na História”.
O suicídio e suas razões justificadas naquela carta ajudaram a transformar Vargas, que enfrentava pressões para deixar o poder, em símbolo de uma causa popular. Multidões saíram às ruas em manifestações de luto e revolta, e aquelas palavras póstumas alteraram profundamente o ambiente político do período.
“Uma carta é uma espécie de deslocamento. Eu escrevo agora para um futuro em que já não estarei, que ainda não existe. Mas, quando o futuro chegar, eu de alguma forma poderia estar nos olhos de quem lê a minha carta e me contempla”, diz Lucchesi. “É o caso da carta de Getúlio. Ele não escreveu só para os contemporâneos, ele escreveu principalmente para o futuro”.
Sete anos depois, outra carta presidencial provocou mais uma crise institucional. Em 1961, Jânio Quadros comunicou ao Congresso Nacional sua renúncia após sete meses no cargo. Na justificativa, expressa numa carta, o presidente apresentou-se como vítima de adversários que impediam seu governo alegando que “forças terríveis levantam-se contra mim”.
Em 1977, uma missiva se tornou símbolo de resistência à ditadura. Escrita por Goffredo da Silva Telles Jr. e lida no pátio da Faculdade de Direito da USP para duas mil pessoas, a Carta aos Brasileiros foi uma crítica ao regime, que reverbero u pelo Brasil, com frases como: “Para nós a ditadura se chama ditadura, e a democracia se chama democracia”.
Em 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva escreveu o documento conhecido como “Carta ao povo brasileiro”, em que se comprometia com os progressos do anos Fernando Henrique Cardoso e tentava tranquilizar setores empresariais.
Mais recentemente, em 2015, o vice Michel Temer também usou o recurso para expressar sua mágoa com a presidente Dilma Rousseff. Numa carta em que rompia com uma Dilma já ameaçada pelo impeachment, ele disse se sentir um “vice decorativo”. Temer abriu a mensagem com uma expressão em latim, verba volant, scripta manent, que significa “as palavras voam, os escritos permanecem”.
No entanto, o mesmo gênero literário que foi usado para falar verdades também foi utilizado para mentiras. Hoje, o termo fake news é bastante comum, mas no passado o recurso apareceu em cartas, sobretudo em dois momentos marcantes. O primeiro, em 1921, foram cartas publicadas pelo jornal Correio da Manhã atribuídas a Artur Bernardes, então candidato à Presidência, que chamavam o marechal Hermes da Fonseca de “sargentão sem compostura”. As ofensas, comprovadamente falsas, quase fizeram ele perder a eleição.
E também em 1955, o texto conhecido como Carta Brandi foi divulgado a menos de 20 dias da eleição para sabotar João Goulart, candidato à vice-presidência. A suposta carta era assinada pelo deputado argentino Antonio Brandi, sugerindo uma mobilização de “brigadas de choque operárias”, para a implementação de uma “república sindicalista” no Brasil. O texto forjado foi amplamente divulgado por Carlos Lacerda, gerando uma grave crise política a poucos dias da votação. As investigações provaram que a carta era uma farsa. (Com informações do jornal O Globo)