Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 9 de fevereiro de 2026
Viver em áreas com com alta desigualdade econômica não está associado de forma geral a piores condições de bem-estar subjetivo ou de saúde mental, como mostra o senso comum de pesquisas sobre o tema. Os efeitos negativos podem aparecer quando a região experimenta extrema pobreza ou alta inflação.
Essas são as principais conclusões do artigo “No meta-analytical effect of economic inequality on well-being or mental health” (“Não há efeito metanalítico da desigualdade econômica sobre o bem-estar ou a saúde mental”, em tradução livre), publicado recentemente na revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo. O texto ainda diz que, em economias estáveis, alguma desigualdade é até positiva: eleva o otimismo sobre a possibilidade de ascensão social.
— Nossa principal conclusão é que as pessoas que vivem em locais com maior desigualdade não relatam, em média, bem-estar significativamente menor ou pior saúde mental. Ao mesmo tempo, descobrimos que a desigualdade pode ser mais relevante em condições econômicas mais difíceis. Em particular, em contextos onde a pobreza é maior ou está aumentando, sugerindo que a desigualdade pode agravar o fardo da pobreza — explicou o psicólogo social Nicolas Sommet, chefe de pesquisa do Centro Lives da Universidade de Lausanne, na Suíça, que desenvolveu o trabalho com sua equipe.
Ele conduziu uma metanálise, método estatístico que combina resultados de vários estudos sobre um tema para chegar a uma estimativa mais precisa e robusta. Foram considerados 168 estudos que agregam mais de 11 milhões de participantes em 38.335 unidades geográficas (cidades, estados ou países) no mundo. A equipe de Sommet testou modelos diferentes até chegar às descobertas que, segundo ele, desafiam a ideia popular nas ciências sociais de que a desigualdade causa danos psicológicos generalizados em populações inteiras, alimentando uma ansiedade de status. Ele diz combater a narrativa de que “a desigualdade é ruim para todos”, que considera simplista, apresentando evidências de um quadro mais complexo e cheio de nuances.
Segundo o pesquisador, os estudos que relacionam desigualdade econômica a males de saúde mental são, em geral, mais limitados, têm dados inconsistentes. Estudos maiores, de maior qualidade, tendem a encontrar pouca ou nenhuma associação. Ele argumenta que resultados “mais impressionantes e estatisticamente significativos” são mais fáceis de publicar em periódicos científicos que estudos que não encontram efeitos:
— Como resultado, a literatura publicada pode transmitir uma impressão mais negativa do que o conjunto completo de evidências sugeriria.
Inspiração inversa
Sommet decidiu se debruçar sobre o tema em meados de 2010, após ler um livro que argumenta que viver em um lugar com alta desigualdade de renda prejudica o bem-estar e a saúde mental das pessoas, independentemente de quanto elas ganham individualmente. Na época, achou o argumento tão convincente que mudou o foco de sua pesquisa para a desigualdade econômica e começou a analisar grandes conjuntos de dados globais. Como considerou as evidências inconsistentes, decidiu fazer uma metanálise em busca de uma visão clara do que a literatura realmente demonstra.
Sommet observa que nessa base foram incluídos dois estudos que continham dados do Brasil: um examinou a desigualdade entre municípios em relação à depressão, e o outro tratou do indicador entre estados em função de depressão e suicídios. No conjunto, os resultados dessa correlação foram negativos ou nulos.
O pesquisador concluiu que só a distância entre ricos e pobres não é suficiente para gerar mal-estar. Portanto, a redução da desigualdade econômica por si só não garante melhora substancial na satisfação da população. O trabalho indica que a desigualdade tende a ser mais relevante onde a pobreza é maior ou está aumentando, sugerindo que a distância entre base e topo da pirâmide pode agravar o fardo psicológico da renda insuficiente ou que se deteriora pela alta inflação. Com informações do portal O Globo.