Domingo, 11 de Outubro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de outubro de 2026
Foi no atendimento humanitário da Cáritas e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que uma família de angolanos encontrou apoio para recomeçar. Delmany Rodrigues e o irmão foram trazidos pela mãe, Dona Amélia, até o Rio de Janeiro. Eles estavam fugindo do agravamento da guerra civil, que aterrorizava o país. O ano era 1994.
Mas a decisão de deixar Angola trouxe outros desafios para a família. Apesar de pertencerem à classe média no país de origem, os três enfrentaram dificuldades financeiras no Brasil. Ao decidir permanecer no Rio com os filhos, Amélia perdeu o emprego que tinha em Angola e precisou solicitar refúgio.
Durante a infância e a adolescência, Delmany e o irmão receberam cestas básicas, material escolar e auxílio para pagar o aluguel. Também tiveram acesso a medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a cursos de qualificação profissional. Anos depois, bolsas de estudo abriram caminho para o ensino superior. Delmany se formou primeiro em Educação Física, por meio de políticas públicas voltadas a estudantes de baixa renda. Depois, cursou Fisioterapia com uma bolsa viabilizada por uma parceria com o ACNUR.
“Foi um divisor de águas na nossa vida. Hoje as pessoas me chamam de doutor, tenho clínica e virei empresário. Mas eu não seria nada disso se não tivesse recebido esse auxílio lá no início. O suporte nos deu comida, remédio e acesso ao estudo. Formou cidadãos”, disse ele. Mas crianças que, como Delmany, hoje buscam uma vida melhor em outro país com as famílias podem não ter a mesma oportunidade. A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma grave crise financeira e vem promovendo cortes de pessoal e mudanças na estrutura para tentar contornar a situação.
Em um ano, as Nações Unidas cortaram mais de 10 mil postos de trabalho e viram o orçamento geral sofrer uma redução importante. Isso colocou programas e ações humanitárias em risco. Enquanto isso, a entidade sofre pressões dos Estados Unidos, que devem bilhões de reais em contribuições obrigatórias.
Os cortes de pessoal atingiram 21 das 41 agências e organismos da ONU em 2025. Entre os mais afetados estão o ACNUR, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os dados estão em um relatório do Conselho de Chefes Executivos da ONU, que reúne informações sobre o quadro de funcionários das diferentes entidades da organização.
Em 2024, o sistema das Nações Unidas tinha 130.948 postos de trabalho. No ano seguinte, o número caiu para 120.176, uma redução de 8%. Para 2026, a organização aprovou a extinção de outros 2,9 mil cargos em diferentes setores. A ONU também instituiu um programa de demissão voluntária e de aposentadorias antecipadas.
No fim do ano passado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a situação financeira da organização era a mais frágil em anos. De forma geral, as agências que integram todo o sistema das Nações Unidas vêm sofrendo com a queda de receita.
Em 2025, por exemplo, a manutenção de toda a estrutura da ONU custou US$ 64,3 bilhões (R$ 322 bilhões), uma queda de 2% em relação a 2024. Dois terços desse valor foram destinados à assistência humanitária e a ações de desenvolvimento nos países.
O cenário para 2026 é ainda mais desafiador, principalmente para o setor humanitário.
Stéphane Dujarric, porta-voz de Guterres, disse que os Estados Unidos reduziram drasticamente as contribuições voluntárias para a assistência humanitária. O país era responsável por cerca de 45% do orçamento da área. Além disso, países europeus também fizeram cortes.
“O resultado foi dramático. As pessoas nos campos de refugiados passaram a receber menos alimentos e vacinas e tiveram menos acesso à educação. Programas inteiros foram encerrados. Com isso, as pessoas que dependiam dessa ajuda não receberam o que precisavam”, afirmou. (Com informações do g1)