Sábado, 30 de Maio de 2026

Home em foco Direita e esquerda do Brasil repercutem com viés eleitoral decisão de Trump de considerar PCC e Comando Vermelho terroristas

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Nos dois polos do espectro político veem-se reações inflamadas à decisão do governo de Donald Trump de classificar como terroristas as principais facções do crime organizado no Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O jogo eleitoral explica grande parte dos discursos hiperbólicos.

Para a direita adepta dessa e de outras bandeiras belicosas e populistas na segurança pública, trata-se do início de uma guerra implacável contra o narcotráfico —e, não menos importante, de uma medida associada ao encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro (PL) na antevéspera.

Para a esquerda liderada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), trata-se de ameaça à soberania e traição aos interesses pátrios maquinada pela família Bolsonaro —que, também nessa versão, acaba levando os créditos pela ofensiva trumpista.

Ela não vem de hoje, muito menos se limita ao Brasil. Do ano passado para cá, a Casa Branca já classificou como terroristas organizações criminosas do México e da Venezuela, entre outras com atuação nas Américas Central e do Sul. O intento de estender tal designação ao PCC e ao CV era conhecido havia meses e fazia parte das preocupações diplomáticas do governo Lula.

A estratégia americana se ampara em um erro conceitual. Pelos critérios mais aceitos do regramento internacional, o terrorismo se caracteriza, principalmente, por objetivos políticos e ideológicos —e, por mais que o PCC e o CV imponham seu jugo cruel sobre comunidades e se infiltrem na economia e no Estado, seu objetivo é assegurar os lucros do crime, não derrubar governos.

As consequências vão além da teoria, ao abrir caminho para intervenções armadas fora do território dos Estados Unidos, facilitar deportações e criar riscos de sanções contra pessoas, empresas e bancos pelos quais passe dinheiro das facções.

Idealmente, uma colaboração bem-vinda deveria se dar na forma de recursos, treinamento e inteligência, dado que o crime organizado é, sim, um fenômeno transnacional. No plano doméstico, demos passos importantes com a Operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado, e sua nova fase, a Fluxo Oculto, deflagrada nesta semana.

Ambas se basearam na cooperação institucional entre órgãos federais e paulistas contra o aparato financeiro utilizado pelo PCC. Sem ações espetaculosas nem disputas políticas, é possível e imperativo fechar brechas por onde o crime se infiltra na economia legal e perpetua seus ganhos.

Não há, até aqui, mais do que especulação em torno dos impactos da medida de Trump, inclusive os meramente eleitorais. Mesmo o imprevisível e destrutivo presidente americano há de saber, de todo modo, que perante a comunidade internacional estará lidando com uma das maiores democracias do mundo, não com uma ditadura falida como a que atacou na Venezuela. (Opinião/Folha de S. Paulo)

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