Sábado, 23 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 22 de maio de 2026
Dormir tarde, ter dificuldade para acordar cedo e tentar compensar o cansaço no fim de semana faz parte da rotina de muitos adolescentes. Esse padrão, muitas vezes tratado como falta de disciplina ou excesso de telas, tem explicação: é o chamado jet lag social.
O termo descreve o desalinhamento entre o relógio biológico e os horários impostos pela vida cotidiana, como escola e compromissos. Na prática, o corpo segue um ritmo, enquanto a agenda exige outro – o que leva a pessoa a dormir e acordar em horários inadequados para o organismo.
“É diferente da insônia, pois aqui o problema não é a falta de sono, e sim o descompasso entre o tempo biológico e o social”, explica a neurologista Letícia Soster, do Einstein Hospital Israelita. Um estudo da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) reforça a dimensão do problema.
Ao analisar mais de 64 mil adolescentes entre 12 e 17 anos, todos escolares, a pesquisa aponta que mais de 80% deles apresentam algum grau de jet lag social. Os resultados foram publicados na revista Sleep Health.
“O fenômeno envolve uma perda crônica de sono nos dias úteis, geralmente compensada nos fins de semana. Quanto maior for a diferença entre os horários de sono na semana e no fim de semana, maior o desalinhamento”, explica a pesquisadora Nina Martins, doutoranda do programa de pós-graduação em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da UFRGS e primeira autora do estudo.
Apesar de comum, o jet lag social está associado a uma série de impactos e prejuízos à saúde. Nos jovens, pode causar pior desempenho escolar, dificuldade de concentração, alterações de humor e maior risco de ansiedade e depressão, além de consequências metabólicas, com maior risco inclusive de obesidade.
Outros comportamentos podem agravar esse cenário. O estudo identificou associação entre jet lag social e hábitos como excesso de telas, consumo de álcool e pular o café da manhã.
O horário de ir para a escola é outro fator que pode piorar esse desajuste no sono. Não à toa, segundo o estudo, adolescentes que estudam no período da manhã apresentam maior prevalência do problema. “Há um conjunto de evidências internacionais consistentes mostrando que começar as aulas mais tarde melhora o tempo de sono, a atenção e até indicadores de saúde mental nos adolescentes”, diz Letícia Soster.
Embora mudanças estruturais não sejam simples, algumas medidas e pequenos ajustes na rotina podem ajudar a reduzir o impacto desse tipo de jet lag. Manter horários de sono mais regulares, inclusive aos fins de semana, diminuir o uso de telas à noite e aumentar a exposição à luz natural pela manhã estão entre as recomendações.
Mesmo assim, o problema vai além de escolhas individuais. “Quando mais de 80% dos adolescentes apresentam algum grau de jet lag social, estamos diante de um fenômeno populacional e de um problema de saúde pública”, alerta a neurologista. “O sono inadequado nessa fase tem impacto sobre aprendizado, saúde mental e metabolismo”, completa.