Quinta-feira, 05 de Fevereiro de 2026

Home Economia Economista diz que Lula “rasgou o manual da ciência política”, ao começar o governo “com o pé na tábua dos gastos”

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O economista Samuel Pessôa diz que Lula “rasgou o manual da ciência política”, ao começar o governo “com o pé na tábua dos gastos”. Segundo ele, o pacote fiscal anunciado na semana passada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deverá reduzir o déficit primário em 2023, mas não vai conter o aumento da dívida.

Pessôa acredita, porém, que, se depender de Haddad, as contas públicas serão gerenciadas com parcimônia. “O pai dele é imigrante libanês, tinha loja de tecidos, e o Fernando já trabalhou em balcão, fechou caixa. Ele tem um sentimento da vida real e acho que, na área fiscal, é conservador.”

1) De forma geral, qual a sua avaliação sobre os primeiros movimentos do governo Lula na economia?

O Lula resolveu iniciar o governo com o pé na tábua dos gastos, agravando o rombo nas contas públicas. A gente já tinha um buraco estrutural no Orçamento da ordem de R$ 200 bilhões e o primeiro movimento do Lula foi aumentar o gasto em pelo menos R$ 150 bilhões, elevando o rombo para R$ 350 bilhões a R$ 400 bilhões. Aí, surgiu uma dúvida: será que o Tesouro vai conseguir ter uma posição fiscal sólida para a dívida não aumentar e até cair ao longo do tempo, sem que, para isso, precise incorrer em imposto inflacionário? Esta foi a dúvida que apareceu.

2) O que o sr. quer dizer quando fala em “déficit fiscal estrutural”? Como chegou ao valor de R$ 200 bilhões?

Para que a dívida pública não cresça, o governo deve ter uma receita superior às despesas não financeiras em torno de 2% do PIB, que equivalem mais ou menos a esses R$ 200 bilhões que eu mencionei. Essa diferença seria necessária para pagar os juros da dívida pública, para ela ficar estável ou até diminuir. Agora, o que o Lula fez? Jogou R$ 150 bilhões a mais na conta, aumentando o buraco fiscal em 1,5% do PIB, para 3,5% do PIB. Isso gerou uma perplexidade em todo mundo e mais incerteza, porque ninguém sabe o que se passa na cabeça do Lula.

3) Por que o sr. diz que esse aumento de gastos gerou perplexidade? Isso não era mais ou menos previsível?

O Lula é um homem experimentado e pragmático, mas começou o governo rasgando o manual da ciência política. O manual diz que você deve começar o governo com o pé no freio do gasto, para organizar a casa, e fazer as “maldades”, aquelas medidas mais difíceis de serem aprovadas no Congresso, na “lua de mel”. Aí, na segunda metade do mandato, você pode fazer as bondades com mais folga, porque já arrumou um pouco a economia. Agora, fazer isso no início de mandato, com quatro anos pela frente, é estranho. É um problema grande, que o próprio Lula terá de administrar.

4) Neste contexto, como o sr. viu a nomeação do ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad para a Fazenda?

Conheço bem o Fernando. Ele é formado em Direito, mas fez o mestrado em economia na FEA. No mestrado, ele estava um ano na minha frente. Também fizemos o Colégio Bandeirantes juntos, não na mesma sala, mas no mesmo ano. E o Fernando, por onde passou, não teve uma condução fiscal irresponsável. O pai dele é imigrante libanês, tinha loja de tecidos, e o Fernando já trabalhou em balcão, fechou caixa. Ele tem um sentimento da vida real e acredito que, na parte fiscal, é conservador.

5) Até que ponto as medidas fiscais anunciadas pelo Haddad devem alterar o quadro fiscal que o sr. traçou?

É muito positivo o ministro mostrar que está preocupado com a questão fiscal. É importante ele sinalizar que está trabalhando para cortar o déficit primário previsto para 2023, para no máximo R$ 100 bilhões ou 1% do PIB. O problema é que essas medidas não atacam o déficit fiscal estrutural do Estado brasileiro, do qual eu falei há pouco. A maior parte delas é transitória, com impacto fiscal só neste ano, e o pacote todo é insuficiente para estabilizar a dívida pública em relação ao PIB.

6) O pacote se concentrou no aumento de receita e não no corte de gastos. Como o sr. analisa esta questão?

É natural da esquerda querer gastar mais e resolver o problema fiscal aumentando impostos, como é natural da direita querer fazer o ajuste pelo corte de gastos. Ambas são estratégias legítimas. É uma escolha eminentemente política. O Lula quer gastar mais com os pobres. Acho correto. Só que, para ele fazer isso, tem de tirar os recursos de algum lugar.

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