Quinta-feira, 30 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 30 de abril de 2026
A China continua surpreendendo o mundo, não apenas pelos reluzentes arranha céus de suas megalópoles e sua engenharia que permitiu ao País se tornar a “fábrica do mundo”. Agora, as atenções se voltam aos porquês de tanto sucesso, em busca de inspiração e método para replicar alguns dos êxitos mais reluzentes do gigante asiático. Por trás desse fenômeno econômico avassalador, existe uma eficiente estrutura de ensino e pesquisa, nada diferente do que antes havia feito a Coreia do Sul, só que agora em doses muito maiores de ousadia e investimentos. Impossível, nesse contexto, não estabelecer comparações com o Brasil, estagnado no meio do caminho e sem um projeto efetivo para nosso sistema educacional. Por décadas, o debate brasileiro sobre ensino superior oscilou entre expansão de vagas e contingenciamento orçamentário. Enquanto isso, a China tratou suas universidades como infraestrutura estratégica, tão vital quanto energia, defesa ou logística. Em 30 anos, os chineses saíram da periferia acadêmica para o centro da produção científica global.
A boa notícia para quem deseja se inspirar no exemplo chinês é que a ascensão não foi acidental. A China executou um plano de longo prazo, com metas claras, financiamento crescente e foco em ciência e tecnologia. Programas nacionais elevaram instituições como a Universidade de Pequim e a Universidade Tsinghua aos principais rankings internacionais. O investimento em pesquisa e desenvolvimento cresceu de forma consistente, formando um contingente massivo de doutores em áreas estratégicas como engenharia, inteligência artificial, energia e biotecnologia.
A China manteve, ao longo de diferentes lideranças, um compromisso contínuo com ciência e tecnologia. No Brasil, cortes e recomposições orçamentárias seguem o ciclo fiscal anual e a conjuntura política. Ciência exige previsibilidade. Sem estabilidade de financiamento, não há laboratório que planeje a próxima década.
Pequim concentrou recursos em áreas com impacto econômico direto. O Brasil dispersa esforços. Temos vantagens naturais e acumuladas, agroindústria tropical, transição energética, biocombustíveis, mineração sustentável, saúde pública, mas ainda carecemos de um alinhamento claro entre universidade, política industrial e mercado.
Universidades chinesas funcionam como motores regionais de inovação. A conexão com empresas é institucionalizada e orientada a resultados. No Brasil, apesar de avanços legais, a burocracia e a insegurança jurídica ainda dificultam a transformação de pesquisa em produto, patente ou startup.
A China expandiu sua presença acadêmica na Ásia, África e Oriente Médio como parte de sua estratégia geopolítica. O Brasil poderia fazer o mesmo na América Latina e nos países africanos lusófonos, ampliando intercâmbio, cooperação científica e influência cultural.
É evidente que o modelo chinês não é plenamente replicável, nem desejável em todos os aspectos. A liberdade acadêmica brasileira, assegurada constitucionalmente, é um ativo inegociável. A centralização excessiva e a pressão por produtividade quantitativa observadas na China trazem riscos que não devem ser ignorados.
A principal lição chinesa é estratégica. Trata-se de compreender que universidade não é gasto corrente é investimento estruturante. Países que dominam tecnologia dominam cadeias produtivas. Países que dominam cadeias produtivas determinam padrões globais.
O Brasil vive hoje o desafio de reindustrialização, transição energética e transformação digital. Nenhuma dessas agendas prosperará sem universidades fortes, financiamento estável e metas nacionais claras.
Se quisermos crescer de forma sustentada, precisamos tratar o ensino superior como projeto de país. A China entendeu isso há três décadas. A pergunta que fica é se o Brasil está disposto a fazer o mesmo ou continuar estagnado entre a indecisão e o desperdício de tempo.
(Instagram: @edsonbundchen)