Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026

Home Política Eleições de 2026 colocam tribunais à prova diante do uso massivo de inteligência artificial

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As eleições de 2026 devem marcar um divisor de águas no processo eleitoral brasileiro ao serem as primeiras realizadas sob uso intensivo de ferramentas de inteligência artificial (IA) nas campanhas políticas. O cenário coloca à prova a capacidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de fiscalizar conteúdos e conter a desinformação em tempo real, diante de uma tecnologia cada vez mais acessível e sofisticada.

Especialistas avaliam que a popularização da IA impõe um novo patamar de desafios à Justiça Eleitoral, exigindo regras mais claras, mecanismos de fiscalização mais ágeis e sanções mais duras. Diferentemente de 2024, quando o impacto dessas ferramentas ainda foi limitado, a expectativa é de que, em 2026, a inteligência artificial seja elemento central das estratégias de campanha, com marqueteiros já estruturando equipes dedicadas ao tema.

Responsável pela organização e fiscalização das eleições, a Justiça Eleitoral tem no TSE sua instância máxima. Em 2024, o tribunal aprovou resoluções que passaram a exigir a rotulagem de conteúdos produzidos por inteligência artificial, estabeleceram deveres às plataformas digitais e proibiram o uso de deepfakes — vídeos ou áudios manipulados para simular pessoas reais.

Agora, ao longo do mês de fevereiro, o TSE realizará audiências públicas com especialistas, representantes de plataformas e entidades da sociedade civil para discutir o aprimoramento das regras eleitorais do próximo ciclo, seguindo o rito de atualização das resoluções a cada dois anos.

Para o advogado especialista em direito eleitoral Alberto Rollo, as normas aprovadas refletem um esforço de adaptação, mas o cenário ainda é incerto. “Em 2026, a inteligência artificial deve se consolidar como o maior desafio para o TSE. Será, sem dúvida, a eleição da IA”, afirma.

O professor de Direito Eleitoral da FGV-SP Fernando Neisser defende que o tribunal avance além das regras atuais e estabeleça um canal permanente de cooperação com as plataformas que produzem conteúdos por IA. “O TSE teve sucesso ao firmar acordos com redes sociais. Agora, é preciso trazer para a mesa as plataformas de inteligência artificial”, diz.

Já o advogado e pesquisador da PUC-SP Erick Beyruth alerta para o fator tempo. Segundo ele, conteúdos falsos podem atingir milhões de eleitores antes de qualquer reação institucional. “Quando a Justiça Eleitoral age, muitas vezes o impacto já ocorreu”, afirma. Para Beyruth, a distinção entre conteúdos reais e sintéticos tende a se tornar cada vez mais difícil, sobretudo no caso de vídeos.

O uso crescente da tecnologia já se reflete nas redes sociais. Em novembro de 2025, após Jair Bolsonaro admitir que tentou romper a tornozeleira eletrônica durante prisão domiciliar, conteúdos satíricos produzidos com IA circularam em perfis de esquerda. Mais recentemente, imagens manipuladas mostraram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com aparência “musculosa” durante uma viagem ao Rio de Janeiro.

Em sentido oposto, perfis alinhados à direita compartilharam vídeos falsos de pesquisas sobre a popularidade de Lula e conteúdos que simulavam falas do presidente sobre temas sensíveis da política externa.

Para o marqueteiro Pedro Simões, que atuou nas campanhas de Tabata Amaral (PSB-SP) e do prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD), esses episódios evidenciam os riscos da tecnologia. Ele lembra o uso de deepfakes que sexualizaram a imagem de Tabata durante a campanha municipal. “Isso marca a IA como instrumento de ataque político direto”, afirma.

Apesar dos riscos, Simões destaca efeitos positivos, como automação de tarefas, organização de dados, segmentação de eleitores e monitoramento de redes sociais.

Especialistas, porém, defendem punições mais severas. Segundo eles, multas aplicadas atualmente têm baixo efeito dissuasório. “As sanções para o uso indevido de inteligência artificial são muito brandas”, afirma Rollo. Advogados avaliam que penalidades como cassação de registro, diploma ou mandato tendem a produzir efeitos mais concretos de responsabilização.
(Com informações do jornal O Estado de S. Paulo)

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