Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026

Home Colunistas Empreender também é uma forma de proteção

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Toda semana, ao apresentar as notícias do Rio Grande do Sul, no Jornal da Pampa, uma informação se repete de forma perturbadora: mulheres assassinadas.

Em 2025, o Estado registrou queda nos índices gerais de criminalidade, sendo considerado o ano mais seguro da sua história. Ainda assim, na contramão das estatísticas, os feminicídios cresceram 8%. Foram 79 mulheres mortas. Os dados são oficiais e foram divulgados pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Os números mais recentes reforçam a gravidade do cenário: estamos finalizando o mês de janeiro e nove mulheres já perderam a vida em decorrência da violência apenas neste início de ano.

Esse contraste exige mais do que comemoração de indicadores. Exige reflexão.

Na maioria dos casos, essas mulheres não haviam denunciado seus agressores. Estima-se que cerca de 70% delas nunca buscaram ajuda formal antes do desfecho. A pergunta que precisa ser feita não é apenas por que não denunciaram, mas o que as impediu de sair.

A resposta, quase sempre, passa pela dependência. Financeira, emocional e estrutural. Muitas mulheres permanecem em relações abusivas não por falta de informação, mas por falta de margem. Falta de alternativa concreta para recomeçar.

É importante dizer com clareza: a violência contra a mulher não acontece apenas em contextos de baixa renda. Ela atravessa todas as classes sociais. Há mulheres que vivem em casas confortáveis, frequentam bons ambientes e têm acesso a tudo, menos à própria autonomia. Não passam necessidades, mas não têm dinheiro. Não tomam decisões financeiras, não constroem carreira, não geram renda própria. Muitas são formadas, capazes e inteligentes, mas ficaram apagadas ao longo do tempo.

Nesses contextos, o abuso raramente é físico. Ele costuma ser psicológico, silencioso e contínuo. O medo não é apenas da agressão, mas da perda do status, da identidade social e da sensação de não saber quem se é fora daquela relação.

É nesse ponto que o empreendedorismo feminino precisa ser tratado com responsabilidade. Empreender não é, necessariamente, largar a CLT ou abrir um negócio por impulso. Empreender também é criar uma renda paralela, ativar uma habilidade, retomar uma carreira adormecida ou estruturar um projeto possível. Mas isso exige planejamento. Pensar, estruturar, fazer conta, entender riscos. Autonomia sem estratégia pode gerar mais vulnerabilidade, não menos.

Também é preciso maturidade para aceitar que o cenário perfeito quase nunca existe. Muitas mulheres não começam porque esperam o momento ideal, o dinheiro ideal ou a confiança total. A realidade é que autonomia se constrói com o que se tem hoje, de forma possível e consciente. Começar pequeno, testar, ajustar e crescer aos poucos também é empreender.

É fundamental afirmar com responsabilidade: a primeira orientação diante de qualquer forma de violência é denunciar e buscar os canais oficiais de proteção. Esse passo é indispensável e salva vidas. Mas, a partir da minha vivência profissional, entendo que denunciar, muitas vezes, não é suficiente se a mulher não tiver condições reais de sustentar a própria saída. Autonomia econômica não substitui a denúncia, mas fortalece a possibilidade de ruptura.

Por isso, além de incentivar que toda mulher busque ajuda institucional, defendo que empreender, com planejamento e estratégia, pode ser parte do caminho de libertação. Trabalhar é digno. Trabalhar é identidade. Toda mulher veio ao mundo para construir algo e reconhecer o próprio valor.

Se você é mulher e está vivendo qualquer forma de violência e deseja conversar sobre caminhos possíveis para construir autonomia por meio do trabalho e do empreendedorismo, pode me procurar. Será um prazer ajudar a pensar possibilidades reais, com responsabilidade e estrutura.

A pergunta que fica é simples e urgente: quantas mulheres ainda permanecem em risco não por falta de coragem, mas por falta de saída?

(Suellen Ribeiro – Empresária, mentora em posicionamento de marca pessoal e palestrante. Apresentadora do Jornal da Pampa – Grupo Rede Pampa. Instagram: @suribeiroc)

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O elo ignorado: maus-tratos a animais e violência contra mulheres
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