Sábado, 10 de Janeiro de 2026

Home em foco Entenda como o excesso de generais explica a falta de ação da Venezuela perante ataques dos Estados Unidos

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A cúpula do governo da Venezuela, incluindo o líder chavista Nicolás Maduro, exaltou por meses as capacidades da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), prometendo uma resistência ferrenha caso tropas americanas avançassem contra o país, enquanto as tensões regionais provocadas pelo envio de aparatos militares para a região escalavam. Quando Washington bombardeou alvos estratégicos em Caracas e capturou Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, de um complexo fortificado da capital, pouca resistência foi vista, sem nenhum agente americano morto ou veículo aéreo abatido.

Analistas apontam que a operação americana do último sábado (3) demonstra tanto a superioridade do poderio militar dos EUA quanto a defasagem das Forças Armadas venezuelanas — em um processo de declínio operacional intrinsecamente ligado à interferência de fatores políticos na nomeação de militares e na conversão das Forças Armadas em uma extensão do regime chavista.

“A Venezuela não tem Forças Armadas profissionais”, afirmou o analista venezuelano radicado no Brasil, Ricardo Salvador De Toma-García, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais. Segundo ele, “quando você tem um conjunto de oficiais que defendem abertamente uma pessoa, que fazem culto ao indivíduo, que falam de questões ideológicas, você perde o carácter profissional. O que se vê é uma ausência de capacidades defensivas desde o ponto de vista técnico e operacional, produto do declínio das Forças Armadas, que passaram a ser parte de um partido político em armas”.

Declínio

Embora o chavismo tenha origem nos quartéis venezuelanos — o grande idealizador do movimento socialista no país, Hugo Chávez, chegou à patente de tenente-coronel —, a liderança política sempre olhou com desconfiança para a caserna. Ainda sob o comando de Chávez, vítima de uma tentativa de golpe em 2002, o governo iniciou um movimento institucional de pulverização da primazia do uso da força, criando grupos armados como os “coletivos” e a Milícia Nacional Bolivariana, ao mesmo tempo em que estreitou laços militares.

“Com Chávez, houve um processo de transformação das Forças Armadas não necessariamente para torná-las mais profissionais, capazes e operacionais, mas sim em um braço político fardado do regime”, disse o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) Sandro Teixeira Moita. Esse processo, segundo ele, teve um aumento dramático com Maduro, que ampliou a promoção de generais e “fez algo que mesmo Chávez via com restrição: tirar os militares de atribuições de segurança e defesa para atribuições no Estado venezuelano, fundindo-se de maneira umbilical às Forças Armadas”.

A estratégia sob Maduro aconteceu em duas frentes. Enquanto o presidente acelerou a promoção de militares por um critério de lealdade ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), militares de alta patente, entre aqueles considerados simpáticos ao regime, passaram a receber cargos estratégicos em ministérios, empresas públicas — incluindo a PDVSA, estatal de petróleo — e diversas outras áreas.
Contingente

Estimativas apontam que as FANB tenham atualmente 2 mil generais e almirantes em suas fileiras — um número mais de duas vezes maior que o das Forças Armadas dos EUA, embora o total de pessoal militar americano seja mais de 10 vezes superior. A prática não criou apenas uma elite militar fisiológica, arraigada às benesses recebidas, mas também representou prejuízos no campo operacional.

“Quando você tem um número de generais que excede as capacidades reais de comando, deixa de ter um sentido tático e operacional diante de cenários de guerra”, afirmou De Toma-García, o analista venezuelano ouvido por O Globo. “Quantos generais você têm no papel? E quantas divisões você tem efetivamente? Isso é um grande problema”.

O processo de nomeação criou distorções na FANB pouco vistas em outras partes do mundo. Teixeira Moita aponta que o sistema de promoção enfraqueceu critérios consagrados para estabelecimento de hierarquia, como o etário e o meritório.

Inação

Para Toma-García, no plano operacional, o que se viu na ação dos EUA em Caracas foi uma combinação de inteligência, infiltração e uso de força cinética inovadoras, associadas a uma atualização de doutrina militar e novos meios de guerra. Por outro lado, o analista deu destaque para a reação imediata das autoridades venezuelanas — ou para a inação.

“A FANB tem um tipo de coesão que surpreende muito pela sua passividade. Em um país normal, o ministro da Defesa já teria se demitido ou pedido a renúncia. O que eu vejo é que existe um temor, um forte temor, pelo histórico de repressão violenta e de tortura a oficiais que tentaram contestar questões que julgavam erradas ou que tentaram conspirar”, afirmou. As informações são do jornal O Globo.

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A cúpula do governo da Venezuela, incluindo o líder chavista Nicolás Maduro, exaltou por meses as capacidades da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), prometendo uma resistência ferrenha caso tropas americanas avançassem contra o país, enquanto as tensões regionais provocadas pelo envio de aparatos militares para a região escalavam. Quando Washington bombardeou alvos estratégicos em Caracas e capturou Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, de um complexo fortificado da capital, pouca resistência foi vista, sem nenhum agente americano morto ou veículo aéreo abatido.

Analistas apontam que a operação americana do último sábado (3) demonstra tanto a superioridade do poderio militar dos EUA quanto a defasagem das Forças Armadas venezuelanas — em um processo de declínio operacional intrinsecamente ligado à interferência de fatores políticos na nomeação de militares e na conversão das Forças Armadas em uma extensão do regime chavista.

“A Venezuela não tem Forças Armadas profissionais”, afirmou o analista venezuelano radicado no Brasil, Ricardo Salvador De Toma-García, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais. Segundo ele, “quando você tem um conjunto de oficiais que defendem abertamente uma pessoa, que fazem culto ao indivíduo, que falam de questões ideológicas, você perde o carácter profissional. O que se vê é uma ausência de capacidades defensivas desde o ponto de vista técnico e operacional, produto do declínio das Forças Armadas, que passaram a ser parte de um partido político em armas”.

Declínio

Embora o chavismo tenha origem nos quartéis venezuelanos — o grande idealizador do movimento socialista no país, Hugo Chávez, chegou à patente de tenente-coronel —, a liderança política sempre olhou com desconfiança para a caserna. Ainda sob o comando de Chávez, vítima de uma tentativa de golpe em 2002, o governo iniciou um movimento institucional de pulverização da primazia do uso da força, criando grupos armados como os “coletivos” e a Milícia Nacional Bolivariana, ao mesmo tempo em que estreitou laços militares.

“Com Chávez, houve um processo de transformação das Forças Armadas não necessariamente para torná-las mais profissionais, capazes e operacionais, mas sim em um braço político fardado do regime”, disse o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) Sandro Teixeira Moita. Esse processo, segundo ele, teve um aumento dramático com Maduro, que ampliou a promoção de generais e “fez algo que mesmo Chávez via com restrição: tirar os militares de atribuições de segurança e defesa para atribuições no Estado venezuelano, fundindo-se de maneira umbilical às Forças Armadas”.

A estratégia sob Maduro aconteceu em duas frentes. Enquanto o presidente acelerou a promoção de militares por um critério de lealdade ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), militares de alta patente, entre aqueles considerados simpáticos ao regime, passaram a receber cargos estratégicos em ministérios, empresas públicas — incluindo a PDVSA, estatal de petróleo — e diversas outras áreas.
Contingente

Estimativas apontam que as FANB tenham atualmente 2 mil generais e almirantes em suas fileiras — um número mais de duas vezes maior que o das Forças Armadas dos EUA, embora o total de pessoal militar americano seja mais de 10 vezes superior. A prática não criou apenas uma elite militar fisiológica, arraigada às benesses recebidas, mas também representou prejuízos no campo operacional.

“Quando você tem um número de generais que excede as capacidades reais de comando, deixa de ter um sentido tático e operacional diante de cenários de guerra”, afirmou De Toma-García, o analista venezuelano ouvido por O Globo. “Quantos generais você têm no papel? E quantas divisões você tem efetivamente? Isso é um grande problema”.

O processo de nomeação criou distorções na FANB pouco vistas em outras partes do mundo. Teixeira Moita aponta que o sistema de promoção enfraqueceu critérios consagrados para estabelecimento de hierarquia, como o etário e o meritório.

Inação

Para Toma-García, no plano operacional, o que se viu na ação dos EUA em Caracas foi uma combinação de inteligência, infiltração e uso de força cinética inovadoras, associadas a uma atualização de doutrina militar e novos meios de guerra. Por outro lado, o analista deu destaque para a reação imediata das autoridades venezuelanas — ou para a inação.

“A FANB tem um tipo de coesão que surpreende muito pela sua passividade. Em um país normal, o ministro da Defesa já teria se demitido ou pedido a renúncia. O que eu vejo é que existe um temor, um forte temor, pelo histórico de repressão violenta e de tortura a oficiais que tentaram contestar questões que julgavam erradas ou que tentaram conspirar”, afirmou. As informações são do jornal O Globo.

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