Sábado, 17 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 16 de janeiro de 2026
A coluna que começou em Belém do Pará, durante a COP30, nasceu com o desafio de narrar, em tempo real, os debates sobre transição energética, mudanças climáticas e sustentabilidade. Desde então, reverberamos os ecos daquele encontro, trazendo reflexões que vão além da técnica e da política: mergulhamos também em filosofia e espiritualidade, como nos artigos publicados no jornal O Sul sobre o nascimento do menino Jesus e sobre a estrela que guiou os místicos até Belém. Essa mistura de ciência, fé e razão sempre buscou ampliar o olhar sobre o que significa existir em um planeta em crise.
Hoje, porém, o tema é mais distópico. Distopia, em contraste com a utopia, é a representação de uma realidade futura marcada por opressão, desigualdade ou catástrofe. É o oposto do “mundo ideal”: um cenário em que a humanidade falha em corrigir seus erros e se vê obrigada a conviver com consequências nefastas. Não escrevo para assustar, mas para alertar. Afinal, se não existe um “planeta B”, talvez tenhamos que pensar em um “plano B”. E aqui está o trocadilho: não adianta procurar outro endereço cósmico para mudar de CEP; o que precisamos é mudar de atitude. O “plano B” não é fugir da Terra, mas reinventar nossa forma de viver nela.
Quem se preocupa com o meio ambiente costuma enxergar a vida além do ciclo tradicional de trabalhar, acumular bens e buscar felicidade em um mundo fechado. Essas pessoas assumem um compromisso existencial. Do ponto de vista filosófico, é como diria Hans Jonas em O Princípio Responsabilidade: temos o dever ético de preservar a vida para as futuras gerações. Antropologicamente, cuidar da natureza é reconhecer que nossa cultura só existe porque há um ambiente que a sustenta. Biologicamente, é admitir que somos parte de um ecossistema interdependente. E logicamente, é perceber que destruir o planeta é destruir a nós mesmos.
Como lembrava Sócrates, “uma vida sem reflexão não merece ser vivida” — e refletir sobre o meio ambiente é refletir sobre a própria condição humana. Este colunista já relatou, em artigo publicado em O Sul, o despertar de consciência que o levou a abandonar uma carreira executiva para se tornar desenvolvedor de negócios voltados à transição energética. Foi uma decisão movida por uma fonte de energia interior: a convicção de que o sucesso não pode ser medido apenas em cifras, mas em impacto positivo sobre o planeta.
Essa mudança de rota pessoal é um exemplo de como cada indivíduo pode encontrar propósito em contribuir para um mundo mais limpo e sustentável. Mas enquanto alguns buscam transformar o presente, outros parecem se preparar para escapar do futuro. Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, dois dos maiores nomes da tecnologia, anunciaram investimentos em bunkers de luxo. Não se trata de simples abrigos subterrâneos, mas de verdadeiros resorts fortificados: spas, alta gastronomia e projeções panorâmicas que simulam paisagens externas.
A experiência de “sobreviver ao fim do mundo” é transformada em um privilégio exclusivo. Empresas especializadas já oferecem projetos de “santuários globais”, com preços que variam de 2 a 20 milhões de dólares, prometendo autonomia energética, suprimentos ilimitados e até prisões internas para conter conflitos. É o mercado imobiliário de alto padrão abraçando o apocalipse como oportunidade de negócio.
Esse fenômeno revela uma contradição inquietante: enquanto bilionários constroem fortalezas subterrâneas, milhões de pessoas continuam expostas às enchentes, secas e guerras que já estão em curso. A distopia deixa de ser ficção científica e se torna estratégia de mercado. O que deveria ser um alerta coletivo transforma-se em privilégio de poucos.
E aqui voltamos ao ponto inicial: a COP30, apesar de sua relevância simbólica, não trouxe grandes resoluções capazes de reverter a curva ascendente das emissões de gases de efeito estufa. Ao contrário, seguimos acumulando ameaças — das mudanças climáticas às guerras, passando por tecnologias que podem escapar ao controle humano. É como se estivéssemos empilhando bombas-relógio, esperando que alguém as desarme.
Mas há espaço para otimismo. O surgimento desses bunkers é um sinal de que algo está muito errado. E reconhecer o erro é o primeiro passo para corrigi-lo. Se tivermos coragem de dar os passos certos — investir em energias limpas, reduzir desigualdades, fortalecer a cooperação global — poderemos desarmar as bombas que nós mesmos criamos. Não precisamos de bunkers subterrâneos; precisamos de pontes sobre o abismo que cavamos. O “plano B” não é fugir da Terra, mas salvar o único lar que temos. Afinal, não existe planeta B — e é justamente por isso que precisamos reinventar o planeta A.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética