Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 11 de fevereiro de 2026
No último final de semana, à beira-mar, tive uma conversa despretensiosa com um senhor de cerca de oitenta anos, talvez mais. O rosto profundamente marcado pelo tempo, os cabelos brancos, a fala pausada e um celular nas mãos, configurado com letras grandes para compensar a visão já cansada. Falávamos de coisas triviais, até que, quase sem perceber, a conversa derivou para o tema do consumo. Ele comentou, com uma serenidade impressionante, que se sentia diariamente “bombardeado” por propagandas: no rádio, na televisão e, sobretudo, naquele pequeno aparelho que carregava no bolso.
Em determinado momento, disse algo que me ficou gravado: aquelas propagandas, segundo ele, tinham a intenção de lhe roubar a liberdade. Não usou termos técnicos, não falou em dados, métricas ou tecnologia, mas descreveu com clareza o fenômeno que hoje chamamos de algoritmo. Contou que bastava pesquisar alguma coisa uma única vez para que, depois, aquilo passasse a persegui-lo na tela, aparecendo a todo instante, como se o telefone “soubesse” do que ele precisava ou, mais precisamente, do que deveria desejar. “Isso não é liberdade”, disse, quase em tom de confidência. “É alguém escolhendo por mim”.
Chamou-me profundamente a atenção o fato de que aquele senhor, com pouco estudo formal e certamente sem nunca ter ouvido falar em filosofia moderna, expressava com precisão uma ideia central do pensamento de Baruch Spinoza. Para Spinoza, o ser humano não é livre quando simplesmente segue seus desejos. Ao contrário do senso comum, desejar não equivale a escolher. Os desejos, segundo o filósofo, nascem de causas que nos atravessam e nos determinam, muitas vezes sem que tenhamos consciência delas. A verdadeira servidão, portanto, não está em ser fisicamente coagido, mas em ser conduzido por impulsos que julgamos nossos, quando, na realidade, foram produzidos em nós.
Na Ética, Spinoza afirma que os homens se creem livres porque conhecem seus desejos, mas ignoram as causas que os determinam. O velho senhor da praia, sem jamais ter lido essa frase, parecia tê-la compreendido pela experiência. Ele percebia que aquelas propagandas não apenas ofereciam produtos, mas moldavam vontades, criavam necessidades artificiais e estreitavam o campo da escolha. O desejo, nesse contexto, não nasce espontâneo; ele é cuidadosamente cultivado, repetido, reforçado, até que passe a parecer natural.
A crítica spinozana às paixões ajuda a iluminar esse cenário contemporâneo. Quando somos dominados por afetos passivos, pela compulsão de consumir, pelo medo de ficar de fora, pela ansiedade de possuir, deixamos de agir e passamos a reagir. Perdemos, assim, a autonomia. A liberdade, para Spinoza, não consiste em fazer tudo o que se quer, mas em compreender por que se quer aquilo que se quer. É um exercício de lucidez, não de satisfação imediata.
Talvez seja esse o ponto mais inquietante da conversa à beira-mar: perceber que, enquanto sofisticamos os mecanismos de indução do desejo, a sabedoria da vida cotidiana continua a nos oferecer diagnósticos precisos. Aquele senhor não falava em “capitalismo de vigilância” nem em “economia da atenção”, mas intuía que algo essencial estava em jogo. Ao perceber que seus desejos estavam sendo direcionados, ele identificou, com clareza admirável, a fronteira entre liberdade e servidão.
No fim, saí daquela conversa convencido de que a filosofia não vive apenas nos livros. Às vezes, ela aparece sentada em um banco de praia, segurando um celular simples, lembrando-nos de que a verdadeira liberdade começa quando desconfiamos dos desejos que nos oferecem prontos.
Amilcar Fagundes Freitas Macedo
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