Terça-feira, 11 de Agosto de 2026

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Especialistas e jornalistas de todo o País estiveram reunidos em São Paulo para debater os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas e a chegada do Super El Niño.

Promovido pelo iCS (Instituto Clima e Sociedade) e e-mundi (Encontro Mundial da Imprensa), o evento foi realizado nos dias 6 e 7 de agosto no Hotel Pestana.

Na abertura do encontro, o fundador do e-mundi, o jornalista e colunista do Jornal O Sul Leandro Mazzini, deu as boas-vindas aos participantes e ressaltou a importância do tema.

Na sequência, a diretora Programática do iCS, Thais Ferraz, abordou o trabalho do instituto, que atua há 11 anos no Brasil, sem fins lucrativos, apoiando projetos de soluções climáticas.

Ela ressaltou que é crescente o número de pessoas atingidas pelos fenômenos climáticos extremos no Brasil, a importância da prevenção e da adaptação às mudanças, além de limitar o aumento da temperatura global. Segundo Thais, os custos com perdas e danos é muito maior do que a adaptação às mudanças.

A especialista em Política Climática Subnacional e Legislativo do iCS, Carmynie Xavier, ressaltou a importância de trazer para a gestão pública projetos climáticos de adaptação, prevenção, preservação e mitigação.

Carmynie afirmou que os Estados estão cada vez mais interessados em ações de agenda climática, dentre eles o Rio Grande do Sul, que em 2024 enfrentou as maiores enchentes da sua história.

Super El Niño

O pesquisador da Embrapa e professor do FGVAgro Eduardo Assad abordou os efeitos previstos do Super El Niño na agricultura brasileira. O pico do fenômeno, que já começa a mostrar a sua força, está previsto entre outubro, novembro e dezembro, permanecendo até 2027.

“As chuvas intensas no Sul já eram esperadas, mas ainda não se sabe qual intensidade alcançarão”, afirmou.

Apesar da intensidade do fenômeno, ele destacou que as perdas estimadas no setor de grãos na safra 2026/27 não devem passar de 10% do volume total da produção no País.

Já o coordenador FGVAgro, Guilherme Bastos, destacou a importância do seguro agropecuário para minimizar as perdas no setor e ressaltou que está 100% garantida a permanência do Super El Niño até o início da ano que vem.

Segundo ele, os impactos na agricultura dependerão da intensidade final do fenômeno, do momento do plantio, do enchimento de grãos e da temperatura do Atlântico. No entanto, afirmou que a cultura do arroz não deve ser muito afetada.

Bastos destacou que há um “despreparo total dos municípios para desastres climáticos” e um “desaparelhamento” diante das mudanças climáticas”. Ele também citou que quase 80% dos municípios brasileiros não têm planos de contingência para a estiagem e reservação de água para garantir proteção à agricultura.

O especialista defendeu adaptar as culturas agrícolas às mudanças climáticas, aumentando, por exemplo, a produção de frutas. “Já há dados necessários apontando os impactos das mudanças climáticas”, afirmou.

Efeito estufa

O coordenador do Núcleo de Pesquisa Econômica⁠ do IGPP (Instituto para Governança Territorial e Políticas Públicas), Giovani Gianetti, abordou como a agricultura pode contribuir para combater as mudanças climáticas, diminuindo a produção de gases causadores do efeito estufa.

Segundo ele, cresceu a participação da agricultura brasileira nas emissões desses gases. Para mitigar o problema, o especialista citou a recuperação de pastagens e o reflorestamento.

Gianetti informou que o RS está entre os Estados com mais emissões de gases agrícolas.

FNP

O coordenador de Meio Ambiente e Mobilidade Urbana da ⁠FNP (Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos), Daniel Miranda, abordou o trabalho da entidade, que representa municípios acima de 80 mil habitantes, na questão ambiental.

Ele destacou o aumento da frota de ônibus elétricos nas cidades brasileiras, com o apoio do governo federal, principalmente em São Paulo.

Miranda também citou a falta de participação dos municípios na governança climática. “Os critérios de financiamento climático são estritamente bancários. O sistema é estruturado por regras bancárias e não por riscos climáticos”, declarou.

“Os municípios têm capacidade técnica insuficiente para atuar em catástrofes climáticas”, prosseguiu.

Miranda também lembrou das enchentes históricas de 2024 no RS. “Não há um prefeito que queira passar o que o Rio Grande do Sul passou em 2024”, afirmou.

Energia

A diretora de transformação industrial do ⁠Instituto E+ Transição Energética, Stefania Relva, abordou as energias limpas. “Onde o Brasil investe agora decide o futuro da indústria verde”, destacou.

“Novos investimentos em combustíveis fósseis colocam em risco o nosso potencial de indústria verde”, prosseguiu. Segundo ela, o setor elétrico não precisa mais de carvão.

Segundo dia de palestras

No segundo dia de palestras, a vice-presidente do Instituto Talanoa, Liuca Yonaha, destacou que, conforme pesquisa, um em cada quatro brasileiros das classes A, B e C afirma que já foi diretamente deslocado por algum evento climático no Brasil – ou seja, teve que sair de casa. De acordo com o estudo, a chuva é o evento climático mais lembrado no Sul do País, que mais causou impacto na população.

Ela ressaltou que é preciso cumprir os alertas climáticos para prevenir tragédias. Segundo a jornalista, estrategista digital e especialista em políticas climáticas, diminuiu o número de pessoas que não acreditam nas mudanças no clima.

Ela enfatizou a importância do papel da imprensa nessa questão. “A imprensa deve conectar o clima com pautas que fazem parte do cotidiano”, afirmou.

Liuca alertou também sobre os perigos do calor excessivo provocado pelo aquecimento global, como a insolação e a desidratação.

PPPs

O sócio e consultor sênior do Radar PPP – empresa especializada no acompanhamento de parcerias público-privadas –, Bruno Carnelosso, explicou como funcionam as PPPs, as concessões à iniciativa privada e quais são os seus benefícios.

Segundo ele, durante a enchente histórica de 2024 em Porto Alegre, o sistema de drenagem não estava funcionando corretamente. De acordo com o economista, se houvesse uma parceria com a iniciativa privada, provavelmente o sistema operaria da maneira adequada, pois passaria por revisões frequentes, conforme o contrato.

“Concessão não é privatização. Depois volta para o Poder Público”, afirmou.

Saneamento

O economista Gesner de Oliveira, coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV, abordou por que os eventos climáticos extremos ameaçam o saneamento básico no Brasil.

Ele apresentou um estudo que mostra que os desastres naturais já causaram R$ 732 bilhões em prejuízos no País em 12 anos, sendo R$ 61,2 bilhões apenas no abastecimento de água potável. Quase 3 mil pessoas morreram no período.

Gesner citou a tragédia climática no RS em 2024 como sendo comparável aos principais desastres naturais mundiais e ressaltou que, sem sistemas de drenagem adequados, os municípios ficam vulneráveis a enchentes.

Ele destacou o binômio enchente/seca que ocorre anualmente no RS e a importância do reuso da água.

Também apresentou os dados do saneamento no Brasil, onde 1,33 milhão de casas ainda não têm banheiro. Ainda citou a resistência política a parcerias público-privadas e concessões.

Encerramento

A diretora-executiva do iCS, Maria Netto, que possui mais de 30 anos de experiência em finanças sustentáveis e políticas climáticas globais, encerrou o evento.

Ela destacou que a adaptação às mudanças climáticas é a melhor forma de reduzir custos com as tragédias, principalmente na agricultura, adaptando o que produzir às condições do clima.

Segundo Maria, a securitização é fundamental para evitar prejuízos. Ela destacou que a cobertura por seguros no RS foi menor do que 10% durante as enchentes históricas.

“Fenômenos extremos são cada vez mais recorrentes. É preciso olhar isso como um tema contínuo. Agenda climática precisa ter participação de várias entidades. Política pública é muito importante”, ressaltou.

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