Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 20 de janeiro de 2026
Quando adolescente, sentado nas carteiras de madeira da escola de ensino médio em Garibaldi na serra gaúcha, eu tinha uma professora de matemática chamada Celita Beal. Celita era daquelas figuras inesquecíveis, como todos os bons professores que deixam marcas permanentes em seus alunos. Ela tentava pacientemente — ou nem tanto — ensinar para a turma os cálculos de algoritmos.
Confesso que, naquela época, eu não via muito sentido naquilo. Eu era um aluno questionador, desses que só aprendem quando entendem o propósito. E, claro, não perdi a oportunidade de perguntar: “Professora, para quê aprender isso? Nunca será utilizado!”. Celita, com sua firmeza característica, respondeu: “Te concentra, presta atenção e aprenda!”. Simples assim. Uma bronca divertida, quase uma peraltice, que até hoje ecoa na minha memória.
O curioso é que, décadas depois, percebo que os tais algoritmos não só foram utilizados, como tomaram conta da vida de nós humanos. Naquele tempo, o termo “inteligência artificial” não era popular; parecia coisa de ficção científica. Hoje, a IA é onipresente. Está nos aplicativos que sugerem qual música ouvir, nos sistemas que decidem qual notícia aparece primeiro na tela, nos mecanismos que calculam a rota mais rápida para chegar ao trabalho.
Algoritmos estão em tudo: no banco que aprova ou não um crédito, no streaming que recomenda séries, no supermercado que ajusta preços em tempo real. Até mesmo nas redes sociais, que moldam nossas narrativas e comportamentos, muitas vezes sem que percebamos.
Um filósofo contemporâneo cunhou um termo curioso: “Tecexistencialismo”. Ele descreve essa teia invisível de algoritmos que vai tecendo nossa existência, fio por fio, até que já não sabemos onde termina nossa identidade e começa a programação que nos conduz. É uma armadilha sutil: a perda de identidade em meio a tantas influências digitais. Ou talvez, quem sabe, nossa identidade já estivesse perdida antes, e os algoritmos apenas revelaram isso com mais clareza.
Estamos no meio de um processo histórico, um ponto de inflexão entre dois momentos: o humano e o pós-humano. De um lado, ainda carregamos nossas memórias, nossas histórias, nossas Celitas Beal que nos ensinaram a pensar. Do outro, convivemos com inteligências artificiais que aprendem, decidem e até criam. É como se estivéssemos atravessando uma ponte: não chegamos ao outro lado, mas também já não estamos mais no ponto de partida. O resultado final? Ninguém sabe. Talvez seja uma convivência harmônica entre humanos e máquinas; talvez seja uma fusão tão profunda que já não conseguiremos distinguir quem é quem.
O fato é que os algoritmos são agora parte inseparável de nossas vidas. Alguém começou tudo isso com a IA, e desde então ela se espalhou como uma onda que não pode ser contida. Será que alguém estará imune a esse processo? Duvido. Quantas mudanças ainda estão por vir? Muitas, certamente. E eu, que um dia questionei a utilidade dos algoritmos, hoje escrevo este artigo para reconhecer: eles não só são úteis, como se tornaram protagonistas da nossa história. Talvez Celita Beal tivesse razão: era preciso prestar atenção e aprender. Afinal, este tal de algoritmo acabou nos ensinando que o futuro não é apenas cálculo — é destino.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com