Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de janeiro de 2026

O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente pela força da cana-de-açúcar na produção de etanol. Mas nesta segunda-feira (12/01), em Santiago, no Vale do Jaguari, o país abriu uma nova página dessa história. A CB Bioenergia inaugurou a primeira usina autorizada a produzir etanol hidratado a partir do trigo, com capacidade inicial de 43 mil litros por dia. O investimento total foi de R$ 100 milhões, sendo R$ 30 milhões financiados pelo BRDE, dentro de linhas de incentivo à inovação.
O salto das culturas de inverno
O trigo, até então visto apenas como insumo para panificação e exportação, ganha protagonismo como matéria-prima energética. A usina também poderá utilizar triticale, cevada e milho, ampliando a flexibilidade da produção. Essa diversificação é estratégica: o Rio Grande do Sul ocupa apenas 20% da área agrícola na chamada segunda safra, o que revela um imenso potencial de expansão.
A aposta em culturas de inverno corrige uma lacuna histórica. Enquanto o verão concentra soja e milho, o inverno muitas vezes deixa áreas ociosas. Agora, esse período pode ser convertido em energia limpa, agregando valor ao campo e fortalecendo a economia regional.
Impacto econômico e social
O projeto deve gerar empregos diretos e indiretos, estimular cooperativas e produtores locais e consolidar Santiago como polo de inovação agrícola. Mais do que uma usina, trata-se de um vetor de desenvolvimento regional. A lógica é clara: transformar vulnerabilidade em oportunidade. O trigo, sujeito às oscilações do mercado internacional, passa a ser insumo para um setor em crescimento — o dos biocombustíveis.
Essa mudança tem reflexos nacionais. Ao diversificar a matriz energética, o Brasil reduz a dependência da cana-de-açúcar e abre espaço para novos mercados de exportação. Em tempos de transição energética global, o país mostra que pode inovar sem abandonar sua vocação agrícola.
Sustentabilidade e economia circular
Além do etanol hidratado, a usina produzirá álcool neutro e subprodutos destinados à ração animal. Essa integração fortalece a lógica da economia circular, reduzindo desperdícios e ampliando a rentabilidade. É um modelo que dialoga com as exigências contemporâneas de sustentabilidade, em que nada se perde: cada grão é convertido em energia, alimento ou insumo industrial.
O papel do BRDE e da regulação
O financiamento do BRDE foi decisivo para viabilizar o projeto. O banco tem se posicionado como agente de inovação, apoiando iniciativas que unem agronegócio e transição energética. A autorização da ANP, publicada em 8 de janeiro, e a licença ambiental concedida pela Fepam em novembro, reforçam a credibilidade do empreendimento.
Um marco para o futuro
A inauguração da usina de Santiago não é apenas uma notícia econômica: é um marco simbólico. Representa a capacidade de o Rio Grande do Sul reinventar sua agricultura e se posicionar como protagonista na agenda energética nacional. O campo gaúcho, que já foi berço de revoluções agrícolas, agora se projeta como laboratório da transição para fontes renováveis.
Mais do que litros de etanol, o que se inaugura é uma nova mentalidade: a de que o inverno pode ser tão produtivo quanto o verão, e que a energia pode nascer de culturas antes subestimadas. O trigo, símbolo da alimentação, passa a ser também símbolo de futuro energético.
Se o Brasil souber aproveitar esse movimento, poderá consolidar uma matriz mais diversificada, resiliente e sustentável. Santiago, com sua usina pioneira, mostra que o caminho já começou.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)